No Abaruna Podcast, a diretora do Instituto Reritiba, Maria José dos Santos Cunha revela como o jesuíta usou a Mata Atlântica como púlpito e laboratório, desvendando sua atuação pioneira na conservação e na defesa dos povos através do Tupi.
Em uma exposição que rejeita simplificações, a Dra. Maria José dos Santos Cunha, autoridade em História da Companhia de Jesus e especialista em São José de Anchieta, desmembrou a figura de São José de Anchieta sob o prisma tríplice da História, Espiritualidade e Sustentabilidade. Ela insistiu que “é imperativo que o estudemos como um agente histórico integral”, cujas ações interligam esses três eixos.
A especialista afirmou que “é absolutamente impossível estudar Anchieta sem o situarmos na violenta chegada da Contrarreforma em terras americanas e, simultaneamente, no bioma da Mata Atlântica que o cercava”.
A Dra. Maria José defendeu que “a preocupação com o meio ambiente, que hoje chamamos de sustentabilidade, não é uma idealização moderna, mas uma realidade da prática jesuíta do século XVI, ligada à sua teologia da Criação”.
A Profundidade da Sustentabilidade Jesuíta
A Dra. Maria José destacou que a relação de Anchieta com a natureza era teológica e pragmaticamente conservacionista. Ela explicou que “os jesuítas, por uma questão de teologia da criação e de sobrevivência pragmática das missões, tinham uma relação intrínseca de respeito e dependência com o território”.
“Anchieta se colocava, constantemente, a favor dos pequenos e contra qualquer possibilidade de degradação da natureza que gerasse a exploração desmedida”, sublinhou a historiadora.
A especialista trouxe o foco para ecossistemas específicos, afirmando que “a defesa dos manguezais, por exemplo, não era um luxo, mas uma necessidade vital para a subsistência daquelas comunidades litorâneas sob a proteção das missões”.
Ela reforçou que “os jesuítas sabiam que o mangue era uma área de reservação permanente e que a destruição do litoral comprometia toda a cadeia da vida”.
A Dra. Cunha lembrou que o Brasil moderno está “finalmente reconhecendo essa ligação profunda de São José de Anchieta com o bioma da Mata Atlântica”, o que atesta sua visão pioneira de conservação.
A história vista pelo códice linguístico
Em sua análise histórica, a Dra. Maria José aprofundou-se no gênio estratégico do jesuíta. Ela argumentou que “o maior desafio de Anchieta era a comunicação e a instabilidade; sua resposta foi o domínio linguístico”.
“O Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil é um documento político e um código linguístico que buscava unificar o entendimento de mundo e a relação dos povos com o território”, detalhou a especialista.
Ela enfatizou que “o gênio de Anchieta forneceu à Companhia um poder de comunicação sem precedentes, um fator decisivo para a sobrevivência e defesa do projeto jesuíta”.
A historiadora destacou que a Língua Geral Tupi “funcionou como um escudo, permitindo que os jesuítas mantivessem o controle da narrativa e, o que é crucial, criassem uma barreira contra a escravização dos nativos pelos colonos”.
A Dra. Cunha também classificou os escritos do padre, como suas cartas e crônicas, como “os primeiros registros de observação naturalista e etnográfica do Brasil, um legado para a documentação da biodiversidade”.
A espiritualidade manifesta na arte e no território
Ao tratar da Espiritualidade, a Dra. Maria José revelou a íntima união entre fé e natureza. Ela afirmou que “Anchieta utilizava o ambiente natural circundante como um verdadeiro púlpito para a catequese”.
“A espiritualidade inaciana passava, invariavelmente, pela contemplação da Criação, algo que Anchieta aplicou de forma radical ao ser exposto à grandiosidade do bioma brasileiro”, explicou a doutora.
A Dra. Maria José trouxe o tema da arte, descrevendo o Poema à Virgem como “um ato de profunda espiritualidade e resiliência, materializado na areia da praia, sob o cativeiro, provando que sua fé estava ancorada na paisagem”.
Ela também abordou o uso dos Autos (peças teatrais), explicando que “eles eram um instrumento pedagógico sofisticado, que adaptava o teatro europeu para inserir a narrativa cristã na cosmologia indígena”.
Conclusão: o agente histórico para o século XXI
A especialista concluiu sua participação sintetizando a importância de sua pesquisa. Ela defendeu que “ao estudarmos Anchieta sob o prisma da sustentabilidade, nós o retiramos do plano puramente mítico e o trazemos para o plano de agente histórico e ecológico, cujas preocupações são urgentes até hoje”.
A Dra. Maria José finalizou com sua mensagem mais enfática: “A lição mais importante que a história da Companhia de Jesus nos deixa é que a preservação do patrimônio natural e a espiritualidade são, na construção da identidade brasileira, as duas faces de uma mesma moeda”.
“Essa é a grande mensagem de Anchieta que deve ser resgatada e aplicada nos desafios ambientais e sociais do século XXI”, concluiu a Dra. Maria José dos Santos Cunha.
Por Dhyovaine Nascimento


