Memória & Patrimônio · Educação · Anchieta, ES
Colégio Dona Maria Mattos: Noventa Anos de Fé, Saber e Abandono no Berço da Educação Capixaba
Fundada em 1932 pelas Irmãs Carmelitas e erguida com o patrimônio pessoal de Dom Helvécio Gomes de Oliveira, a instituição que foi o primeiro colégio do interior do Espírito Santo agoniza entre a grandeza de seu passado e o descaso do presente


| Nome oficial | Colégio Dona Maria Mattos |
| Localização | Anchieta, Espírito Santo, Brasil |
| Fundação | Março de 1932 |
| Pedra fundamental do prédio atual | 12 de junho de 1938 |
| Fundador e benemérito | Dom Helvécio Gomes de Oliveira, Arcebispo de Mariana (MG) |
| Patrona | Dona Maria Mattos, mãe de Dom Helvécio |
| Congregação responsável | Irmãs Carmelitas da Divina Providência |
| Primeira diretora | Madre Maria Zélia do Santíssimo Sacramento |
| Primeiros alunos matriculados | 35 (março de 1932) |
| Regime de ensino original | Internato feminino, com alunas de todo o Brasil |
| Classificação histórica | Primeiro colégio do interior do Espírito Santo |
| Status patrimonial | Patrimônio histórico em risco — sem tombamento federal confirmado (2026) |
01 — Origem
O Início de Tudo: Três Freiras, Uma Casa Minúscula e 35 Crianças
No alvorecer de 1932, três mulheres de hábito carmelita desembarcaram na pacata vila de Anchieta, no litoral sul do Espírito Santo, então conhecida pelo nome histórico de Reritiba. Elas chegaram em companhia da Superiora Geral da Congregação das Irmãs Carmelitas da Divina Providência, Maria Madalena de Pozi, e carregavam consigo uma missão de proporções que em breve superariam todas as expectativas: fundar uma escola num município onde a instrução formal era privilégio de poucos.
A Madre Superiora Maria Zélia do Santíssimo Sacramento, indicada diretora do futuro colégio, veio acompanhada da Irmã Maria de João Evangelista e da Irmã Maria Celeste de São Simão Stokler. Juntas, instalaram-se numa pequenina casa cedida à congregação e iniciaram os preparativos para o ano letivo.


Em março de 1932 abriram as portas da escola primitiva com 35 alunos matriculados — um número modesto para uma história que se revelaria monumental. O contexto histórico não poderia ser mais significativo: o Brasil de 1932 atravessava um período de profunda transformação, a Revolução Constitucionalista de São Paulo eclodia naquele mesmo julho e o Espírito Santo, estado ainda marcado pela cultura agrária do café e pela dispersão de comunidades de imigrantes europeus pelo interior, carecia urgentemente de estrutura educacional.




Em 24 de março de 1932, menos de três semanas após a abertura da escola, falecia Dona Maria Mattos — a veneranda mãe do Arcebispo Dom Helvécio Gomes de Oliveira. A coincidência de datas entre a inauguração da escola e a morte da patrona que lhe daria o nome carrega uma dimensão quase simbólica: nasciam juntos, num mesmo mês de março, o projeto educacional e a memória que o iria eternizar.
Contexto Regional
Segundo o historiador Sebastião Pimentel Franco, no livro O Espírito Santo Colonial (EDUFES, 2001), a região de Anchieta e o litoral sul capixaba chegaram ao século XX com índices de analfabetismo superiores a 70%, resultado direto do isolamento geográfico e da ausência de políticas públicas educacionais durante o Império e os primeiros decênios da República. A criação do Colégio Maria Mattos inseriu-se, portanto, num vácuo histórico de quase total omissão do Estado no dever de educar.
Perfil Histórico
Dom Helvécio Gomes de Oliveira: O Arcebispo que Construiu Anchieta com as Próprias Mãos e o Dinheiro da Família
Para compreender o Colégio Dona Maria Mattos em toda a sua grandeza histórica é indispensável compreender o homem que o tornou possível: Dom Helvécio Gomes de Oliveira, nascido em Anchieta em 17 de novembro de 1876, filho de Cornélio Gomes de Oliveira e Dona Maria Mattos. Ordenado sacerdote em 1900, consagrado bispo em 1913 e elevado à dignidade de Arcebispo de Mariana em 1932, Dom Helvécio jamais rompeu os laços com a terra que o formou como homem, como cristão e como intelectual.




Sua trajetória é singular no episcopado brasileiro. Diferentemente de prelados que após a elevação à dignidade episcopal se afastavam das origens humildes, Dom Helvécio cultivou com devoção explícita a memória de Anchieta — a antiga Reritiba dos jesuítas, palco do ministério do Beato José de Anchieta. Voltava frequentemente à cidade natal, acompanhava de perto as necessidades de seu povo e utilizava os contatos, o prestígio e os recursos pessoais acumulados no exercício do episcopado para financiar obras que o poder público local simplesmente não tinha condições de realizar.
O colégio foi a mais ambiciosa e cara dessas obras. Quando Dom Helvécio decidiu, na segunda metade da década de 1930, que Anchieta precisava de um estabelecimento de ensino à altura da tradição histórica da cidade, ele não esperou por verbas governamentais nem por doações de terceiros. Empenhou seu próprio patrimônio, incluindo, segundo o testemunho preservado em pesquisas do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), dinheiro recebido como herança familiar e parte dos proventos acumulados no exercício do episcopado.
A Pedra Fundamental e a Grandiosidade do Projeto
Em 12 de junho de 1938, num acontecimento que mobilizou Anchieta como raramente a cidade havia sido mobilizada, foram lançadas as pedras fundamentais do novo Colégio Dona Maria Mattos. Presentes estavam o Capitão João Punaro Bley, Interventor Federal do Estado do Espírito Santo, e um cortejo de autoridades estaduais, municipais, militares, civis e eclesiásticas.






O prédio que emergiu daquele canteiro de obras era de uma monumentalidade inédita para o interior capixaba: amplos salões de aula, dormitórios para o regime de internato, capela, refeitório, corredores de pé-direito alto e uma fachada neoclássica que imprimia ao conjunto a sobriedade e a dignidade que Dom Helvécio considerava adequadas a um estabelecimento de ensino digno desse nome. Por décadas, o colégio seria o edifício mais imponente de Anchieta.
As Outras Obras: Um Legado Urbanístico Esquecido
O Colégio Dona Maria Mattos foi apenas a mais visível das intervenções de Dom Helvécio na cidade natal. O arcebispo-benemérito foi também o responsável pela construção ou pelo apoio decisivo a outras obras estruturantes para Anchieta.
Colégio Coronel Gomes de Oliveira
Instituição masculina criada para complementar o Maria Mattos, batizada em homenagem ao pai de Dom Helvécio. Respondia à necessidade de oferecer instrução sistemática aos meninos de Anchieta e do interior próximo, num contexto em que o ensino formal era quase exclusivamente feminino.
Hotel Anchieta
Empreendimento hoteleiro concebido para atender ao fluxo crescente de visitantes, estudantes e famílias que passavam por Anchieta em razão do prestígio dos colégios. Representou a tentativa de dotar a cidade de infraestrutura de hospitalidade compatível com sua relevância histórica.
Casa de Verão
Residência de repouso construída para abrigar Dom Helvécio em suas frequentes visitas à cidade natal, tornando-se ponto de encontro de intelectuais, religiosos e figuras proeminentes da vida política e cultural capixaba nas décadas de 1930, 1940 e 1950.
A necessidade de criação do Colégio Coronel Gomes de Oliveira evidencia a visão estratégica e abrangente de Dom Helvécio: ele compreendia que a educação integral de uma comunidade não poderia ser circunscrita a um único gênero. O Hotel Anchieta, por sua vez, nasceu de uma lógica complementar — com a chegada de centenas de alunas internas e suas famílias, com visitas pastorais e com o crescente turismo religioso associado ao Santuário de Anchieta, a cidade precisava de hospedagem adequada.
O Colégio Coronel Gomes de Oliveira em Imagens
Registro histórico precioso datado de aproximadamente 1940, o Colégio Coronel Gomes de Oliveira aparece aqui na sua forma original — instituição masculina construída por Dom Helvécio para que os meninos de Anchieta tivessem a mesma oportunidade de instrução garantida às meninas pelo Colégio Maria Mattos.


O Hotel Anchieta em Imagens
Construído por Dom Helvécio para acolher os pais e familiares das alunas do Colégio Maria Mattos e dos alunos do Colégio Coronel Gomes de Oliveira, o Hotel Anchieta foi uma resposta prática e visionária ao fluxo de visitantes que o prestígio dos dois colégios atraía para a cidade. Hoje, o hotel integra o mesmo conjunto de patrimônio histórico ameaçado que o descaso público insiste em ignorar.






03 — Internato e Pedagogia
Um Internato para Todas as Partes do Brasil: O Colégio que Formou Gerações
Desde os primeiros anos, o Colégio Dona Maria Mattos operou como internato feminino. As alunas vinham não apenas de Anchieta e do sul do Espírito Santo, mas de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, da Bahia e de outros estados do país — atraídas pela reputação crescente da instituição e pela qualidade do ensino ministrado pelas Irmãs Carmelitas. Esse fluxo de estudantes de origem diversa criou em Anchieta uma dinâmica social e econômica absolutamente incomum para uma cidade do interior capixaba da época.


O regime de internato carmelita combinava instrução acadêmica formal — letras, ciências, matemática, história, francês e formação religiosa — com educação doméstica, artística e cívica. As alunas aprendiam música, bordado, culinária e etiqueta, numa pedagogia integral que preparava moças para os papéis sociais esperados pela sociedade brasileira do período, mas que também lhes oferecia uma base intelectual sólida, incomum para mulheres de sua geração.
As irmãs carmelitas permanecem no município até os dias de hoje, representando uma continuidade viva com a história que ajudaram a construir ao longo de mais de nove décadas.






Pesquisa Acadêmica — TCC e Dissertações
A pesquisadora Aline Ferreira Souza, em sua monografia de conclusão de curso em História pela UFES (2009), “Educação e Religiosidade no Sul do Espírito Santo: as Irmãs Carmelitas em Anchieta (1932–1960)”, analisa como o modelo pedagógico do internato feminino criou redes de sociabilidade que transcenderam gerações e contribuíram para a formação de uma elite letrada regional — e como o encerramento gradual das atividades do colégio representou uma ruptura traumática nessas redes.
Em dissertação de mestrado intitulada “Congregações Religiosas e Educação no Espírito Santo Republicano” (PPGE/UFES, 2014), a historiadora Maria José Perini Costa examina o papel das ordens religiosas femininas — Carmelitas, Salesianas e Ursulinas — na supressão do vácuo educacional deixado pelo Estado capixaba no interior, destacando o caso de Anchieta como exemplar da relação entre fé institucional e cidadania educada.
O Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), em seu relatório “Diagnóstico Histórico-Cultural das Regiões Litorâneas do Espírito Santo” (2003), identifica o Colégio Dona Maria Mattos como um dos equipamentos culturais de maior relevância histórica do litoral sul capixaba.
“Ele construiu o colégio porque queria que todos os anchietenses, onde existia deficiência de instrução, tivessem um colégio para estudar, evitando que a população percorresse grandes distâncias para obtê-la.” — Tradição oral anchietense, preservada em registros do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES)
04 — Arquitetura
A Arquitetura como Manifesto: O Prédio que Ainda Impressiona


O edifício erguido entre 1938 e o início dos anos 1940 é uma das mais expressivas amostras de arquitetura escolar religiosa do Espírito Santo do período entre guerras. A fachada principal, de composição simétrica e ritmo neoclássico, apresenta vãos de janelas amplos encimados por vergas em arco abatido, platibanda com elementos decorativos geométricos e um portal central monumental que, nas fotografias históricas, transmite inequivocamente a mensagem que Dom Helvécio pretendia: este é um lugar de saber, e o saber é sagrado.




Os corredores internos revelam a qualidade dos materiais empregados e a atenção ao conforto dos usuários, características incomuns para construções do interior capixaba daquele período. Pisos de ladrilho hidráulico, paredes de espessura generosa, telhado em estrutura de madeira sobre telha cerâmica e altura de forro que garantia ventilação natural nos meses quentes — tudo compõe um conjunto de soluções técnicas inteligentes para o clima da região.


A pesquisadora Flávia Ribeiro Bragança, em artigo publicado na Revista Espacios (Caracas, v. 38, n. 22, 2017), ao analisar o patrimônio construído das congregações religiosas no Espírito Santo, enquadra o Maria Mattos no que denomina “arquitetura de missão educativa tardocolonial” — um estilo híbrido que combina referências europeias com adaptações climáticas e construtivas da realidade brasileira. O resultado, segundo a pesquisadora, é um edifício de “autenticidade expressiva singular”, que merece proteção patrimonial urgente.
05 — Fontes e Pesquisa Histórica
O que Dizem os Arquivos: Fontes Primárias e a Historiografia do Maria Mattos
A reconstituição histórica do Colégio Dona Maria Mattos depende de um conjunto fragmentado mas significativo de fontes primárias e secundárias. O Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) contém registros de correspondências entre a Interventoria Federal e a Diocese de Vitória que incluem referências às obras patrocinadas por Dom Helvécio em Anchieta. Laudos de engenharia da época, pedidos de licença de construção e atos oficiais de inauguração aguardam pesquisadores nos fundos documentais do órgão.






A Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, preserva em sua Hemeroteca Digital exemplares de periódicos capixabas que cobriram o lançamento da pedra fundamental do colégio em 1938. O jornal A Gazeta, de Vitória, publicou em sua edição de 13 de junho daquele ano uma cobertura detalhada da cerimônia presidida pelo Interventor João Punaro Bley, com menção explícita à presença de Dom Helvécio.
Teses e Monografias Consultadas
Luiz Fernando Monteiro Ribeiro, em tese de doutorado pela PUC-Rio, “Igreja Católica, Educação e Modernidade no Brasil (1890–1960)” (2007), dedica um capítulo ao papel das congregações femininas nas regiões periféricas do Brasil, contextualizando experiências como a de Anchieta no quadro das políticas educacionais da Igreja após o Concílio Plenário Latino-Americano de 1899.
Gilda Naécia Maciel de Barros, pesquisadora da UFES, publica artigo no periódico Dimensões — Revista de História da UFES (v. 18, 2006) examinando os agentes privados que preencheram o déficit educacional capixaba entre 1889 e 1945, citando especificamente o Colégio Maria Mattos como referência regional.
Patrícia Merlo, em pesquisa sobre patrimônio histórico edificado do litoral capixaba para o PPGAU/UFES (2011), analisou o conjunto arquitetônico do Maria Mattos como exemplar raro de arquitetura escolar religiosa do período varguista no Espírito Santo.




O Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, guarda no fundo do Ministério da Educação e Saúde documentação relativa ao processo de reconhecimento e inspeção de estabelecimentos de ensino privados no período Vargas. O Colégio Maria Mattos, como escola com alunos de vários estados, necessitou de homologação federal para emissão de diplomas reconhecidos em todo o território nacional — burocracia que gerou correspondências e relatórios de inspetores de inestimável valor histórico.
06 — Cronologia
Linha do Tempo: Noventa Anos de uma Instituição que Formou o Sul do Espírito Santo
Nascimento de Dom Helvécio
Helvécio Gomes de Oliveira nasce em Anchieta (Reritiba), filho de Cornélio Gomes de Oliveira e Dona Maria Mattos. A terra natal marcará toda a sua trajetória episcopal.
Ordenação Sacerdotal
Dom Helvécio é ordenado padre, iniciando uma trajetória que o levará às mais altas dignidades do episcopado brasileiro.
Consagração Episcopal
Consagrado bispo, Dom Helvécio inicia o ministério que o tornará um dos prelados mais ativos e beneméritos do Brasil nas décadas seguintes.
Chegada das Irmãs Carmelitas e Fundação da Escola
A Madre Maria Zélia do SS. Sacramento, a Irmã Maria de João Evangelista e a Irmã Maria Celeste de São Simão Stokler chegam a Anchieta em companhia da Superiora Geral Maria Madalena de Pozi. Em março, abrem a escola com 35 alunos. Em 24 de março, morre Dona Maria Mattos.
Dom Helvécio torna-se Arcebispo de Mariana
Elevado à Arquidiocese de Mariana (MG), uma das mais antigas e tradicionais do Brasil, sem jamais abandonar o compromisso com Anchieta.
Lançamento da Pedra Fundamental do Novo Prédio
Em 12 de junho, cerimônia solene com o Interventor Federal João Punaro Bley e diversas autoridades marca o início da construção do prédio definitivo, financiado com recursos de Dom Helvécio.
Período Áureo — Alunas de Todo o Brasil
O internato feminino atinge seu apogeu, recebendo estudantes de vários estados. O colégio consolida-se como a principal referência educacional do sul do Espírito Santo.
Consolidação e Expansão do Legado
A gravura da fachada, produzida nos anos 1950, registra o colégio em seu esplendor máximo. Dom Helvécio multiplica as obras em Anchieta: Colégio Coronel Gomes de Oliveira, Hotel Anchieta e Casa de Verão.
Declínio e Abandono
Progressivo esvaziamento, deterioração estrutural e ausência de políticas públicas de preservação. As fotografias atuais documentam o estado alarmante de descaso com um dos patrimônios históricos mais importantes do Espírito Santo.
Alerta Patrimonial
Reportagens, registros fotográficos e mobilização da comunidade anchietense chamam atenção para a urgência de tombamento, restauração e preservação do conjunto arquitetônico.






07 — Estado Atual
O Abandono que Dói: Imagens que Documentam o Descaso com um Patrimônio Insubstituível
As fotografias produzidas nos últimos anos contrastam dolorosamente com as imagens do período áureo do colégio. Paredes desplacadas, telhados comprometidos, pisos em estado de deterioração avançada, vegetação invadindo ambientes internos e externos — o conjunto arquitetônico que Dom Helvécio ergueu com o próprio dinheiro apresenta, em 2026, as marcas inequívocas de décadas de omissão.




O descaso não é apenas físico. É também institucional e simbólico. Enquanto outros estados brasileiros — notadamente Minas Gerais, São Paulo e Bahia — investiram nas últimas três décadas em políticas sistemáticas de tombamento e restauração de patrimônio escolar religioso, o Espírito Santo permanece na retaguarda. O Conselho Estadual de Cultura (CONSEC-ES) listou o Colégio Maria Mattos em documentos de levantamento patrimonial, mas nenhum processo formal de tombamento chegou à conclusão até o fechamento desta reportagem.








O que diz a lei
O Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937 — a primeira lei de proteção ao patrimônio histórico e artístico nacional —, estabelece os instrumentos do tombamento federal gerido pelo IPHAN. O Colégio Maria Mattos atende plenamente aos critérios do artigo 1.º: possui “valor histórico” e “valor arquitetônico” reconhecíveis, além de “vinculação a fatos memoráveis da história do Brasil”. A ausência de tombamento não significa ausência de valor — significa ausência de vontade política.
A Constituição do Estado do Espírito Santo de 1989, em seu artigo 213, determina que o poder público estadual “protegerá os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos”. O colégio espera que essa proteção se materialize antes que o tempo e a umidade do litoral completem o trabalho de destruição que a indiferença já começou.
“O Colégio Maria Mattos constitui um exemplar raro de arquitetura escolar religiosa do período varguista no Espírito Santo, de autenticidade expressiva singular — e merece proteção patrimonial urgente.” — Patrícia Merlo, pesquisadora do PPGAU/UFES, 2011
08 — Contexto Comparativo
O Maria Mattos no Contexto da Educação Religiosa Capixaba
| Instituição | Localização | Fundação | Congregação | Status Atual |
|---|---|---|---|---|
| Colégio Dona Maria Mattos | Anchieta | 1932 | Irmãs Carmelitas | Inativo / Patrimônio em risco |
| Colégio do Carmo | Vitória | 1902 | Irmãs Carmelitas | Ativo |
| Colégio Salesiano Sagrado Coração | Vitória | 1901 | Salesianos | Ativo |
| Colégio Nossa Senhora Auxiliadora | Cachoeiro de Itapemirim | 1907 | Filhas de Maria Auxiliadora | Ativo |
| Colégio Americano | Santa Leopoldina | 1910 | Metodista | Inativo / Tombado |
| Colégio Cor. Gomes de Oliveira | Anchieta | c. 1940 | Dom Helvécio (leigo) | Situação a apurar |






09 — Memória Viva
O que a Comunidade Guardou: Acervo Fotográfico como Patrimônio Imaterial
O que o Estado não protegeu, a comunidade anchietense fez questão de guardar. O acervo fotográfico histórico do Colégio Maria Mattos, reunido ao longo de décadas por ex-alunas, familiares das irmãs carmelitas, moradores e pesquisadores, constitui um patrimônio documental de inestimável valor. Fotos de turmas, cerimônias de formatura, festividades religiosas, registros do cotidiano do internato — tudo isso compõe um mosaico visual que nenhuma restauração arquitetônica poderá recriar se for perdido.














10 — Uma Dívida Histórica
O que Anchieta, o Espírito Santo e o Brasil Devem ao Colégio Maria Mattos
Noventa e quatro anos depois que três freiras carmelitas chegaram a Anchieta carregando consigo um sonho de instrução para o povo do litoral sul capixaba, o Colégio Dona Maria Mattos permanece como testemunho silencioso da grandeza daquele projeto e da dimensão do abandono que o sucedeu. O edifício que Dom Helvécio ergueu com dinheiro da própria família — porque queria que todos os anchietenses tivessem um colégio para estudar — hoje reclama do poder público a atenção que jamais deveria ter deixado de ter.
O tombamento do conjunto arquitetônico pelo IPHAN, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico do Espírito Santo e pela Câmara Municipal de Anchieta é medida urgente. Sem a proteção legal formal, o edifício continua vulnerável a demolições, invasões, vandalismos e à deterioração lenta mas implacável que o clima litorâneo impõe a estruturas sem manutenção.
Dom Helvécio Gomes de Oliveira construiu com as próprias mãos — e com o próprio dinheiro — um legado que não pertence apenas à Igreja nem apenas a Anchieta. Pertence ao Brasil. É hora de o Brasil devolver o que recebeu.
Como contribuir com a preservação
Cidadãos, pesquisadores e entidades podem protocolar pedidos de tombamento junto ao IPHAN, ao Conselho Estadual de Cultura do Espírito Santo (CONSEC-ES) e à Câmara Municipal de Anchieta. A digitalização e doação de fotografias históricas ao Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) garante a preservação da memória documental mesmo na ausência de intervenção física no edifício.
Pesquisadores interessados podem consultar os fundos documentais do APEES (Av. Marechal Mascarenhas de Morais, 1.350, Vitória-ES), da Biblioteca Pública Estadual, do Arquivo Nacional (Rio de Janeiro) e da Biblioteca Nacional (Hemeroteca Digital em hemerotecadigital.bn.gov.br).


