Instituto Reritiba

Os segredos dos manguezais de Guarapari (ES) sob a lupa da geologia marinha

O Dr. Victor Rocha Carvalho, detalha como a reconstituição paleoambiental revela a “migração” dos manguezais capixabas ao longo de milênios e o impacto da ação humana nos últimos 200 anos.

GUARAPARI, ES — Sob a superfície dos manguezais de Guarapari (ES), esconde-se um arquivo meticuloso da história da Terra. Através do estudo de camadas de sedimentos, a ciência está conseguindo visualizar como este ecossistema se deslocou pela paisagem capixaba, muito antes dos primeiros registros históricos da região.

O trabalho é conduzido pelo Dr. Victor Rocha Carvalho, doutor em Oceanologia pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que utiliza o passado para decifrar os desafios que o litoral enfrentará no futuro. Segundo o pesquisador, a configuração atual da região de estudo é fruto de uma dinâmica milenar.

“Baseado em estudos recentes realizados na costa do Espírito Santo, a hipótese do meu trabalho é que a área de estudo foi influenciada pelo aumento do nível do mar durante o Holoceno Inicial e Médio”, explica Carvalho.

O especialista detalha que, nos períodos subsequentes, entre o Holoceno Médio e Tardio, o nível do mar diminuiu, o que resultou na migração dos manguezais de áreas elevadas para zonas topográficas mais baixas. “Em escala temporal de séculos, podemos estar diante de uma expansão dos manguezais em direção ao continente, resultado da atual subida do nível do mar”, alerta.

Para o espacialista, os manguezais funcionam como rastreadores naturais, pois acompanham a variação do nível do mar. “Nesse sentido, dados coletados na costa do Espírito Santo revelam que esses ecossistemas estavam em uma zona topográfica diferente da atual, ou seja, localizava-se em regiões mais elevadas quando o nível do mar estava alto”, afirma. Ele pontua que, nos últimos séculos, essa expansão continental voltou a ocorrer devido à nova subida das águas.

Para “ler” essas transformações, a equipe utiliza uma abordagem de análises físicas, químicas, biológicas e geológicas. Carvalho explica que o estudo cruza diferentes indicadores:  “O estudo é baseado em análises multiproxies, que envolvem: grãos de pólen, isótopos estáveis e análise granulométrica. Todas essas análises permitem uma reconstituição paleoambiental e da paleoflora em escala de milênios a séculos.”

A coleta dessas informações exige um esforço logístico detalhado, com o uso de testemunhos (cilindros de solo), que alcançam entre 3 a 4 metros de profundidade. “Os testemunhos foram coletados em diferentes zonas do manguezal, desde a porção permanentemente recoberta pela lâmina d’água até a zona onde o solo do mangue é mais seco”, detalha o pesquisador, ressaltando que a profundidade visa obter a melhor resolução temporal possível.

Um ponto fundamental da pesquisa é o entendimento de que cada sistema costeiro possui sua própria “assinatura”. Carvalho esclarece que a história de Guarapari pode ser diferente de outros manguezais da costa capixaba:

“Esses ecossistemas respondem a diferentes média anual de temperatura, produtividade/estrutura dos manguezais, topografia, fornecimento de sedimentos para o sistema deposicional costeiro, alcance de maré e ação de correntes e ondas.”

Contudo, a história natural agora divide espaço com a marca humana. Através da técnica de datação por Pb 210 (Chumbo-210) e Carbono-14, a pesquisa isolou os estratos de idade mais recente, referentes aos últimos 200 anos. Segundo o doutor, nessa camada é possível associar as mudanças na assembleia polínica com alterações na estrutura, textura e cor do sedimento, além da composição isotópica.

A relevância de olhar para o que aconteceu há milhares de anos é prática e urgente. Para o Dr. Victor Rocha Carvalho, a história geológica da Terra é composta por mudanças primordiais para a evolução do planeta.

“Para entendermos essas transformações, é essencial estudar os processos do passado, para assim entendermos o presente e modelar a dinâmica desses ecossistemas em um futuro não tão distante”, conclui o especialista. Compreender como o manguezal reagiu a crises passadas é a chave para prever como o litoral capixaba se comportará diante do aquecimento global contemporâneo.

Perfil do especialista
Currículo Lattes 

Victor Rocha Carvalho, possui graduação em Oceanografia (2014) pela Universidade Federal do Pará (UFPA), mestrado em Geologia e Geoquímica (2019) pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutorado em Oceanologia (2025) pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) na área de concentração Geologia Marinha. Possui experiência em dinâmica costeira e reconstituição paleoambiental do Quaternário Tardio, atuando principalmente nos seguintes temas: palinologia, sedimentologia, mudanças climáticas do Quaternário Tardio, mudanças do nível relativo do mar, dinâmica dos manguezais, biogeoquímica de costas tropicais, lagunas costeiras e isótopos estáveis


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