Instituto Reritiba

Do viveiro ao mar: Como a recuperação dos manguezais garante o futuro da pesca em nossa região?

Estudante de Engenharia de Pesca do IFES Piúma inova no cultivo de mudas e defende que o futuro da economia marinha depende da proteção dos berçários naturais

Por Dhyovaine Nascimento Costa

Para o senso comum, a imagem de um engenheiro de pesca remete a barcos em alto-mar e grandes redes. No entanto, Paulino Luis Botnam, aluno do terceiro semestre do IFES Campus Piúma, está provando que a sustentabilidade do setor e o sucesso da captura começam muito antes da água atingir o oceano: começam no lodo e nas raízes dos manguezais.

Como parte do projeto Vozes dos Manguezais, Paulino desenvolve um trabalho que une ciência e prática ambiental. A iniciativa, que já realiza um diagnóstico profundo e ações de conscientização em Guarapari (ES), ganha agora um braço técnico fundamental no viveiro escola, onde o foco é transformar pequenos propágulos em escudos biológicos para o ecossistema capixaba.

A ciência por trás do substrato e o ciclo de vida

O foco inicial do trabalho está nos propágulos de mangue-vermelho (Rhizophora mangle). A escolha por esta espécie é estratégica, dada a sua importância na estruturação do ecossistema. No viveiro, as mudas passam por um período de maturação de cerca de três meses antes de estarem prontas para o plantio definitivo em áreas degradadas.

O aprendizado de Paulino no IFES trouxe uma evolução técnica importante para o projeto. No semestre passado, a equipe utilizava substrato retirado diretamente do manguezal, mas o resultado foi uma barreira ao crescimento.

“Percebemos que o substrato de mangue puro seca e fica bem rígido, o que não permite que as mudas se desenvolvam bem. Agora, estou testando uma mistura de areia de praia com sedimentos de mangue de Piúma, criando o ambiente ideal para as raízes”, explica o estudante.

Embora o material seja preparado com rigor em Piúma, a logística do projeto é integrada: as mudas e o conhecimento gerado são levados para Guarapari. Paulino ressalta que o trabalho ainda está em uma fase de consolidação de infraestrutura no campus. O sistema de irrigação local ainda será montado e, por enquanto, o monitoramento diário é baseado na observação direta, sem análises laboratoriais de variáveis como luz e umidade.

O manguezal como filtro e armadura da vida marinha

Para um futuro profissional da pesca, o manguezal é uma tecnologia natural que garante a segurança alimentar. Paulino destaca que o ecossistema funciona como um filtro potente que:

 * Retém matéria orgânica e sedimentos em suas raízes complexas;

 * Absorve e transforma diversos elementos, como resíduos químicos;

 * Impede que contaminantes cheguem ao mar aberto e afetem a saúde do pescado.

Além da filtragem, o mangue-vermelho atua como uma armadura para a biodiversidade. É entre suas raízes que peixes, camarões e caranguejos encontram refúgio contra predadores durante as fases mais vulneráveis de suas vidas. “Se o mangue está degradado, o peixe diminui, a qualidade da água piora e o esforço do pescador artesanal aumenta para conseguir levar o sustento para casa”, alerta Paulino.

Os desafios sociais de quem protege o invisível

Apesar da importância ambiental, o trabalho de Paulino enfrenta barreiras que vão além da biologia. Para realizar a coleta de sedimentos necessários para a pesquisa, o estudante muitas vezes precisa atuar em áreas restritas pela prefeitura. Sem informação sobre o propósito científico da ação, o julgamento alheio se torna um obstáculo.

“Muitas vezes as pessoas me veem trabalhando e, sem conhecer o objetivo, acabam tirando fotos ou julgando a ação. Isso me deixa desconfortável e constrangido. Nem sempre há compreensão sobre a importância da coleta de sedimentos para os estudos de recuperação”, desabafa.

No entanto, o projeto também serve como ferramenta de diálogo. Quando curiosos se aproximam para perguntar sobre o que está sendo feito e Paulino explica o foco na preservação e no fortalecimento da pesca, o constrangimento dá lugar à motivação. Essa troca de informações é o que o projeto Vozes dos Manguezais busca fortalecer: a união entre a comunidade e a ciência.

O futuro da profissão começa na terra

Ao olhar para o futuro, Paulino deixa uma mensagem para seus colegas de curso e para a sociedade: cuidar do mangue é cuidar da renda e da comida na mesa. “O futuro do pescador começa com a preservação. Cuidar da terra, do mangue e das raízes é garantir mais pescado e sustentabilidade”, conclui.

Com a produção de mudas em ritmo constante e a superação dos desafios técnicos e sociais, o projeto reafirma que a preservação ambiental não é um entrave para a economia, mas a única garantia de que a pesca continuará viva para as próximas gerações.

Ficha Técnica:
Projeto: Vozes dos Manguezais (Diagnóstico e Ações)
Entrevistado: Paulino Luis Botnam (Engenharia de Pesca – IFES Piúma)
Espécie: Mangue-vermelho (Rhizophora mangle)
Inovação: Novo mix de substrato (areia de praia + sedimentos selecionados)

Saiba mais sobre manguezais no projeto “Vozes dos Manguezais” em Guarapari-ES