Liderado pelo Ifes Campus Piúma, evento discute o uso de tecnologias disruptivas e a importância do investimento público para preencher lacunas de conhecimento sobre ecossistemas costeiros.
No dia 10 de abril, o Parque Natural Municipal Morro da Pescaria deixou de ser apenas um refúgio ecológico para se tornar também um espaço de produção e circulação de conhecimento. Em meio à paisagem de Mata Atlântica e à proximidade com ambientes costeiros sensíveis, aconteceu o I Simpósio Vozes dos Manguezais — um evento que reuniu ciência, educação e sociedade em torno de um dos ecossistemas mais estratégicos do litoral brasileiro.
Realizado em Guarapari (ES), o encontro foi estruturado como um marco inicial de uma agenda científica e social, que busca compreender, monitorar e preservar os manguezais da região. À frente dessa iniciativa está Marlon Carlos França, pesquisador e professor no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Campus Piúma.

Um simpósio para abrir caminhos
Para Marlon, o evento representa muito mais do que um encontro acadêmico. Ele enfatiza, em sua fala original:
“O primeiro simpósio do Vozes dos Manguezais de Guarapari, ele é extremamente importante para nós, porque visa promover uma discussão da temática sobre a preservação dos manguezais, assim como também promover o intercâmbio de conhecimentos sobre esse ecossistema tão importante para a zona costeira, sendo esse um ecossistema vital para a biodiversidade marinha e costeira.”
Ao ampliar essa ideia, o pesquisador aponta que o simpósio foi concebido como um espaço estratégico para conectar diferentes níveis de conhecimento — da pesquisa científica à experiência comunitária — criando uma base mais sólida para ações futuras.
Ele complementa:
“Então, nesse contexto, a gente busca com esse evento desvendar alguns desafios para a conservação, discutir sobre esses desafios e as estratégias para alcançar a restauração e o monitoramento dos manguezais, especialmente de Guarapari, que é a área de atuação do projeto Vozes dos Manguezais, financiado pela FAPES, com apoio do Governo do Estado do Espírito Santo e desenvolvido pelo Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), Campus Piúma.”
A fala revela um ponto central: o simpósio não é apenas diagnóstico, mas também planejamento. Trata-se de um espaço onde problemas são identificados e, ao mesmo tempo, soluções começam a ser construídas.
E reforça ainda:
“Então, nesse sentido, o evento, vem para facilitar o intercâmbio de conhecimento e promover a interação de estudantes em diferentes níveis, assim como de profissionais que estão atuando dentro do projeto Vozes dos Manguezais.”


A lacuna que move a ciência
Um dos eixos mais fortes da fala de Marlon — e que estruturou grande parte das discussões do simpósio — é a existência de uma lacuna crítica de conhecimento sobre os manguezais locais.
Ele explica de forma direta:
“Além da troca de conhecimento que o projeto permite entre os pesquisadores e os estudantes, por exemplo, junto com a comunidade, o projeto visa preencher uma lacuna no que diz respeito à conservação dos manguezais. Qual é essa lacuna especificamente? A lacuna do conhecimento.”
Ao ampliar essa reflexão, fica evidente que o desconhecimento não é apenas técnico, mas também territorial e social.
O pesquisador detalha:
“Nós precisamos descobrir o que de fato está acontecendo com os manguezais de Guarapari, se eles estão em processo de expansão ou retração. E se ele está em processo de retração, por exemplo, quais os motivos que estão levando essa retração e quais as localidades que estão acontecendo o processo de retração.”
Essa incerteza transforma o manguezal em um campo aberto de investigação. E é justamente essa busca por respostas que mobiliza o projeto.
Ele continua:
“Nesse contexto a gente consegue desvendar as pressões antrópicas, ou seja, como o homem eventualmente está impactando esse processo de crescimento dos manguezais, principalmente em função do crescimento da cidade, que resulta em uma forte pressão na ocupação de espaços que poderiam ser zonas de expansão dos manguezais.”
E conclui esse raciocínio com um ponto essencial:
“Então o projeto, preenche essa lacuna quando ele descobre essas áreas e passa a educar as pessoas, a dar subsídios para que as pessoas entendam sobre a dinâmica dos manguezais.”


O passado como ferramenta científica
Outro destaque do simpósio foi a apresentação de pesquisas que investigam a história dos manguezais da região.
Marlon explica:
“As pesquisas de reconstituição paleoambiental permitem que nós possamos identificar a idade desse ecossistema, a idade dos manguezais de Guarapari.”
Ele amplia:
“Então, nesse contexto, a gente consegue descobrir qual o período de implantação desse ecossistema, além identificar se ele está em processo de expansão ou retração.”
E reforça a importância disso para o evento:
“Então isso traz para os participantes do evento informações importantes sobre a dinâmica dos manguezais de Guarapari.”
Rede científica e impacto regional
Os resultados apresentados no simpósio não ficam restritos ao evento. Eles alimentam uma rede mais ampla de pesquisa.
Como destaca o pesquisador:
“Portanto, os resultados fortalecem essa rede de pesquisa, que nós construímos, inclusive com outras instituições.”
Ele amplia a escala:
“E agora no litoral sul do Espírito Santo isso é fortalecido porque a gente consegue descobrir períodos de implantação dos manguezais, como eles estão crescendo, se eles estão crescendo de forma saudável.”
E aponta a relevância social:
“Porque a cidade precisa saber disso, as pessoas precisam saber disso, uma vez que os manguezais formam um grande e amplo ecossistema importante para a manutenção da biodiversidade na zona costeira.”
Além disso, ele reforça o impacto econômico e ecológico:
“E isso visa garantir os estoques pesqueiros, por exemplo, visa garantir a manutenção do espaço natural de crescimento de diversos organismos, como caranguejos, camarões e diversos outros organismos.”


Tecnologia como aliada da conservação
Durante o simpósio, também foram apresentadas estratégias de monitoramento que utilizam tecnologias avançadas.
Marlon explica:
“No contexto de estratégias para o monitoramento, nós temos utilizado tecnologias inovadoras, tecnologias que nós inclusive chamamos de tecnologias disruptivas, ou seja, a utilização dos drones, por exemplo.”
Ele detalha o impacto dessas ferramentas:
“Essa tecnologia tem nos permitido um aumento na velocidade da obtenção de dados e da interpretação dos dados também.”
E complementa:
“Com o uso dos drones, nós conseguimos coletar imagens de forma mais célere, para fazer o processamento dessas informações, visando a construção dos mapas, que vão indicar para nós as zonas de crescimento, e as zonas de retração dos manguezais, assim como também a observação de zonas que eventualmente poderiam ser utilizadas para o plantio desse novo manguezal de Guarapari.”
Ifes Piúma: infraestrutura e formação científica
O papel do Instituto Federal do Espírito Santo – Campus Piúma – também, é central nas discussões.
Marlon afirma:
“O Ifes Campus Piúma se torna uma instituição estratégica, localizado no litoral sul do Espírito Santo.”
E explica o porquê:
“É o único campus que nós temos no litoral sul do Espírito Santo vocacionado para trabalhar com a área de ciências do mar.”
Ele reforça a importância da estrutura:
“O Ifes se torna uma instituição estratégica; nesse contexto equipar essa instituição com infraestrutura para o desenvolvimento de projetos dessa magnitude é uma estratégia extremamente importante para o desenvolvimento científico.”
E detalha:
“Nesse contexto, temos o Laboratório de Oceanografia e Clima, junto com seu corpo acadêmico, para desenvolver esse tipo de pesquisa transformando os dados que nós coletamos, os dados brutos, em atividades práticas para os nossos alunos, assim como na geração de diagnósticos.”
Além disso:
“No Ifes, temos mais de vinte laboratórios que conversam entre si e têm uma infinidade de equipamentos que podem ser utilizados para a geração de dados precisos, robustos e que geram diagnósticos também precisos da dinâmica da natureza e dos diversos ecossistemas que nós temos aqui no litoral sul do Espírito Santo, em especial.”


Investimento público e formação de futuro
O apoio institucional também foi destacado:
“Os investimentos realizados até o momento no Laboratório de Oceanografia e Clima, do Ifes Campus Piúma, eles têm grande importância.”
Ele amplia:
“Portanto, o olhar do Estado para as nossas pesquisas, para a ciência, isso traz para nós uma amplificação da importância que é o desenvolvimento do nosso trabalho e da prestação do nosso serviço para a sociedade.”
E reforça o impacto formativo:
“Nesse contexto, nós conseguimos formar pessoas ainda mais capacitadas, mais habilitadas para a utilização de equipamentos e interpretação dos dados ambientais.”
Por fim, Marlon aponta para o futuro:
“Nós precisamos acompanhar a evolução desses ecossistemas e preparar a nossa sociedade para as mudanças que estão ocorrendo agora.”
Ciência acessível e participação social
Encerrando sua análise, Marlon destaca a importância da comunicação científica:
“No contexto da geração de dados, para nós é extremamente importante informar a comunidade.”
E conclui com um dos pontos mais fortes de sua fala:
“Por esse motivo nós estamos gerando dados de fácil acesso e com uma linguagem ainda mais acessível, para que a comunidade consiga compreender ampla e profundamente os resultados que nós estamos gerando, e assim possa também cobrar as iniciativas governamentais, para que ocorra mais investimentos e ocorra a formação de mais pessoas nessa área.”
Um marco que inaugura um movimento
O I Simpósio Vozes dos Manguezais não se encerra no dia 10 de abril. Ele inaugura um processo contínuo de produção de conhecimento, formação de pessoas e mobilização social.
Ao reunir ciência, tecnologia e comunidade no território, o evento consolida uma ideia fundamental: compreender os manguezais é o primeiro passo para garantir seu futuro.
E, como deixa claro, a fala de Marlon França, esse futuro depende de algo essencial — conhecimento compartilhado.


Para saber mais sobre as ações de restauração e os estudos científicos em Guarapari, acompanhe a categoria especial no site: https://reritiba.com/vozesdosmanguezais


