Ensaios e artigos · Historiografia
A Capitania do Espírito Santo: um Itinerário entre as Fontes e a Historiografia
Maria José dos Santos Cunha — Associada do IHGES e Diretora do Instituto Reritiba
A evolução dos registros históricos sobre a presença da Companhia de Jesus na capitania do Espírito Santo, do século XVI ao presente, e o percurso de cronistas, missionários e historiadores que construíram essa memória.


Mapa da Capitania do Espírito Santo. Fotografia em gelatina de prata, 25,3 × 16,5 cm. Acervo Mário Aristides Freire, Setor de Coleções Especiais, Biblioteca Central da Ufes (ACERVUS, MAF 254). Licença CC BY-NC-ND 4.0.
Metadados do mapa
| Número de identificação na CE | MAF 254 |
|---|---|
| Localização | Biblioteca Central > Setor de Coleções Especiais > UFES — ACERVUS Av. Fernando Ferrari, 514, Goiabeiras – Vitória/ES | CEP 29075-910 |
| Título | Mapa da Capitania do Espírito Santo |
| Descrição | Mapa da Capitania do Espírito Santo, registro fotográfico |
| Dimensões | 25,3 x 16,5 cm |
| Materiais | Gelatina de prata por revelação/RC |
| Estado de conservação | Regular |
| Data da digitalização | 1 de fevereiro de 2013 |
| Local de produção | Brasil > Espírito Santo |
| Coleção | Mário Aristides Freire |
| Formato | Imagem |
| Tipo de item | Fotografia |
| Forma de aquisição | Compra |
| Tipo de acesso | Acesso livre |
| Licença | CC BY-NC-ND 4.0 |
| Tipo de acervo | Arquivístico |
Ficha técnica do artigo
| Autora | Maria José dos Santos Cunha, associada do IHGES |
|---|---|
| Publicação | Revista do IHGES, Vitória, nº 73, p. 71–92, 2016 |
| Palavras-chave | Cronistas, missionários, viajantes, historiadores, historiografia, Espírito Santo |
| Recorte temporal | Século XVI ao presente |
| Tema central | Evolução dos registros históricos sobre a Companhia de Jesus na capitania do Espírito Santo |
Resumo
Resumo: Traça-se neste artigo a evolução dos registros históricos sobre a presença da Companhia de Jesus na capitania do Espírito Santo desde o século XVI ao presente, cujo campo de pesquisa tem recebido significativo desenvolvimento nas últimas décadas. Uma contribuição à historiografia do Espírito Santo na continuidade dos trabalhos pioneiros de vários pesquisadores, trazendo a reflexão sobre o tema tendo em vista o contributo para o prosseguimento de novos estudos.
Palavras-chave: Cronistas, missionários, viajantes, historiadores, historiografia, Espírito Santo.
01
Fatos, ideias e a construção da identidade capixaba
O texto aproveita o balanço da pesquisa realizada em torno do tema modernidade e jesuítas, abordado do ponto de vista das relações entre fatos e ideias. Trata-se de resumir uma prática historiográfica fundada na interrogação do evento e respectiva interpretação. Num momento pós eurocêntrico e, para muitos, pós americanizante é propício um olhar mais aberto e polifônico sobre a construção da identidade capixaba, dentro do espaço brasileiro e global, entre os séculos XVI a XVIII. Reflete este período a interação violenta e assimétrica entre os grupos humanos coexistentes no mesmo espaço, portadores de diferentes visões do mundo e que se redefinem em novas atitudes e comportamentos, por forçado contato com outras formas civilizadoras. Graças aos contributos de ciências como a antropologia ou a arqueologia, entre outras, a historiografia pôde encarar com maior justiça o papel dos ameríndios e dos africanos na construção do “novo mundo” que, por muito tempo, a historiografia passou a abertura do mundo através das descobertas, conquistas e colonização como um capítulo principal do prestígio europeu da era moderna.
“Num momento pós eurocêntrico […] é propício um olhar mais aberto e polifônico sobre a construção da identidade capixaba, dentro do espaço brasileiro e global.”
Maria José dos Santos Cunha02
O ciclo dos cronistas, viajantes e missionários
Depois que a nova terra começou a ser habitada pelos portugueses, no denominado “ciclo dos cronistas, viajantes e missionários” que retrataram o Brasil, espelha-se nestes autores a intencionalidade de fornecer respostas que associassem a nova terra às potencialidades dos recursos nela ao dispor. Sob o capitalismo comercial, associado aos descobrimentos e ao aumento das trocas comerciais, os estados modernos europeus tendem a investir na construção naval, fabrico de armamento, treino de homens ligados à ciência náutica, ao mesmo tempo em que possuem ou financiam companhias comerciais. O desafio era encontrar os recursos necessários ao desenvolvimento econômico, o que supõe decisões políticas que lhe são indissociáveis (Wallerstein, p. 67). Mesmo nos textos de viés religioso estas questões aparecem subjacentes aos conteúdos. A tendência tem ainda o recorte dos humanistas em privilegiar o experiencialismo e a divulgação dos novos saberes.
No que ao Espírito Santo diz respeito a primícia está com as cartas dos membros da Companhia de Jesus. Ordem religiosa fortemente hierarquizada com controle central da ação missionária, a epistolografia teve seu início anterior ao código terminológico ou formula scribendi estabelecido pelo padre Geral. Sem o espartilho do cânone, as primeiras conseguem ser as mais espontâneas e mais ricas, do nosso ponto de vista. Preparadas em mais de uma versão, as cartas requerem a análise sistematizada de todas, porquanto do cruzamento de conteúdos se pode atingir a ideia mais aproximada dos atos descritos. A inaugurar o ciclo de cronistas, missionários e viajantes para o Espírito Santo, está Pêro de Magalhães de Gândavo com a primeira história do Brasil, a História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil, publicada em 1576, descrevendo a capitania como a “mais fértil”, e os moradores da vila, edificada numa ilha fluvial a uma légua da foz, os melhor abastecidos em peixe, caça e demais produtos da terra, de todos quantos vivem ao longo da costa (Gândavo, 2004, p. 57).
Antecederam a edição dois ensaios, o primeiro entre 1568 e 1569, o Tractado da terra do Brasil no qual se contem a informação das cousas que ha nestas partes e o segundo em 1569-1570 sobre a terra que começava a despertar interesse entre as demais do império. Fonte jesuítica não assinada, provavelmente de 1574, a História dos Colégios do Brasil, título que identifica o documento, insere informações únicas, a maioria ligadas à Companhia de Jesus, mas que não devem ser descartadas no contexto geral como, por exemplo, o volume do caudal do rio Doce e sua área de influência no oceano, o papel do donatário no acolhimento da tribo de Temiminós do Rio de Janeiro ou a construção da nova igreja de Santiago (1573) com a mobilização da população.
Em 1587, Gabriel Soares de Sousa na descrição da costa da capitania incide a atenção nos detalhes relevantes a quantos navegam no seu litoral, como sejam os rios e os acidentes de terreno mais notáveis que se constituíam em pontos de referência aos viajantes e apontamentos sobre os indígenas mais comuns na capitania (SOUSA, 1879, p. 57). Igualmente, revela a existência da Vila de Vitória, surgida pela necessidade de defesa contra ataques dos índios — dada a sua edificação em ilha —, ao invés da posição no continente do primeiro assentamento construído pelo donatário Vasco Fernandes Coutinho em 1535; mais frágil às investidas por terra ou pelo mar que passou à denominação de Vila Velha. Sobre a capitania, em si, dedica pouco espaço descritivo, talvez por desconhecimento pessoal, remetendo-se praticamente a discorrer sobre as desventuras econômico-financeiras do primeiro donatário, Vasco Fernandes Coutinho, antigo e bem-sucedido militar na Ásia por quem nutria pouca estima (SOUSA, 1879, p. 62).
No século XVII, na sequência do rapto por corsários ingleses, os tratados do Pe. Fernão Cardim, S. J., foram publicados de forma anônima por Samuel Purchas em 1625, “Do Clima e Terra do Brasil”, “Do Princípio e Origem dos Índios do Brazil e de Seus Costumes, Adoração e Cerimônias” e duas cartas dirigidas ao Padre Provincial de Portugal que receberam o título de “Narrativa Epistolar de uma Viagem e Missão Jesuítica pela Baía, Ilhéus, Porto Seguro, Pernambuco, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Vicente, desde o ano de 1583 ao de 1590, indo por Visitador o Padre Christóvão de Gouvêa”, todos reunidos nos Tratados da Terra e Gente do Brasil. Nos dois tratados e nas duas cartas Cardim traça uma panorâmica geral que podemos considerar geográfica e etnográfica, na linha de Gândavo, com os detalhes religiosos a que a correspondência jesuítica condiciona. Relativamente às potencialidades e ao trabalho a ser desenvolvido na capitania do Espírito Santo, Cardim é uma das fontes primordiais para a percepção da mesma, na óptica do colonizador e evangelizador, uma vez que os seus relatos interessam, indistintamente, tanto ao rei quanto à Companhia. As observações foram realizadas durante as suas viagens na qualidade de secretário do Pe. Visitador, Cristóvão de Gouveia. A estes acrescem, também, os depoimentos escritos e orais dos companheiros de Casa. São, particularmente, exuberantes as descrições da forma como os índios cristianizados das duas aldeias de missão visitadas correspondem e traduzem, ao seu olhar estrangeiro, a evangelização feita pelos missionários jesuítas, bem como o relacionamento destes com o donatário.
Do século XVI é ainda o relato do aventureiro inglês Anthony Knivet que em 1592 acompanhou o corsário Thomas Cavendish na tentativa de assalto à vila do Espírito Santo.
Frei Vicente do Salvador, o primeiro cronista nascido no Brasil, encabeça os escritos do século XVII com a História do Brasil concluída em 1627 e coloca-se entre os que destacam e alimentam o mito da serra das esmeraldas, ou seja, a apontar a riqueza geológica e não apenas a agrícola da capitania do Espírito Santo onde, “de cristal, sabemos em certo haver uma serra na capitania do Espírito Santo em que estão metidas muitas esmeraldas” (SALVADOR, Livro I, Cap. 5). Nele se reflete o meio enquanto fator de adaptação e desenvolvimento dos colonizadores. É seu um relato do aproveitamento comercial da extração local do pau-brasil com destino à Europa, por intermediação dos jesuítas, coevo da legislação filipina relativa àquela madeira, bem como da situação vivida em Vitória, vila cabeça da capitania, por ocasião de combate com holandeses que intentaram tomar a vila. Na História de que é autor conjugam-se a visão da possibilidade de riqueza fácil, por via da descoberta de minerais preciosos, e a do esforço de enraizamento dos colonos que, integrados aos locais, lançaram, sem o saber, as bases de nova sociedade e identidade. Como homem da Igreja acredita, e isso mesmo faz transparecer, no papel da religião e da cristianização enquanto elemento civilizador e aglutinador das variadas etnias presentes no espaço da colônia.
Outro jesuíta, o Pe. Simão de Vasconcelos, no Livro Primeiro da Crônica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, obra de cunho histórico e biográfico em modelo panegírico que abarca o primeiro século dos jesuítas na terra brasileira; no que à capitania espírito-santense diz respeito, começa por referir que sete meses após a chegada à Baía do primeiro grupo, no ano de 1549, a povoação de Vila Velha, “com invocação do Espírito Santo” (VASCONCELOS, 1977, p. 206), fora visitada pelo padre Leonardo Nunes, coadjuvado pelo irmão Diogo Jácome. Mas é a partir da fixação do padre Afonso Brás e do irmão Simão Gonçalves, no ano de 1551, quando a vila de Vitória já havia sido principiada, que é feita uma descrição enaltecida, quer da nova vila, quer da generosidade e fertilidade da natureza do seu entorno.
A terminar o ciclo dos cronistas, viajantes e missionários, André João Antonil, outro elemento da Companhia de Jesus, afirma em título dedicado à economia brasileira, a existência da fazenda Muribeca (ANTONIL, 1711, p. 186), propriedade dos jesuítas, especializada na criação de gado e laticínios no sul da capitania do Espírito Santo.
Sugestão: página de manuscrito jesuítico ou carta ânua de época.
Sugestão: ruínas ou vestígios arquitetônicos de aldeia jesuítica no Espírito Santo.
03
O Brasil pós-independência e o IHGB
Após a independência do Brasil, a discussão entre intelectuais e políticos que, em muitos casos, se juntavam na mesma pessoa, acerca do entendimento e implementação do Estado-Nação, para o qual o fator nacionalismo se constituiu como uma peça fundamental de aglutinação — em torno duma ideia capaz de mobilizar uma população muito heterogênea —, centrou-se em matérias constitucionais e na organização político-administrativa do Brasil. Passada esta premente necessidade de fundação do país, surgiram, sob o impulso do plano para a escrita da história brasileira, grandes vultos da intelectualidade que deram corpo, na 2ª metade do século XIX, a uma produção historiográfica ao serviço da causa da identidade nacional. Desligar o Brasil da antiga metrópole era, pois, compreensível e necessário. Para o aprofundamento da desvinculação cultural o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, inspirado no modelo francês e outros congéneres europeus, propunha-se contribuir através da geografia e da história naturais para a unificação territorial e com a história para revolver o passado e trazer às novas gerações os exemplos e “a fama dos grandes homens […], e desta arte mostrarmos às nações cultas que também prezamos a glória da pátria” (BARBOZA, 1839), conferindo-lhes um cunho patriótico.
Paralelamente, a unidade nacional era ainda um problema a resolver em face das diferentes sensibilidades regionais que ocuparam por anos os pensadores dos dois lados do Atlântico. O projeto nacional e nacionalista estava apresentado, o meio para o concretizar estava criado, faltava implementá-lo e o IHGB congregava especialistas dedicados à reconstituição do passado facultando aos brasileiros o conhecimento do país. Sob proposta do sócio fundador Raymundo da Cunha Mattos adota-se a clássica tripartição das épocas históricas: a da pré-história, a colonial e a “desde o dia em que o povo brasileiro se constituiu soberano e independente” (MATTOS, 1838).
Porém, era necessário que o espaço do saber histórico estivesse ao lado do poder político e obedecesse a critérios historiográficos do século XIX. À procura da solução adequada que servisse a política imperial foi lançado em 1840 o concurso para se encontrar o melhor plano para a escrita da História do Brasil, do qual resultou a seleção da memória de Carl Friedrich Philipp Von Martius, cientista que integrara a comitiva da grã-duquesa austríaca Leopoldina, futura esposa de D. Pedro I, intitulado “Como se deve escrever a história do Brasil”. A proposta conferia consistência e unidade à visão organizativa de escrita da história brasileira em torno da especificidade da sociedade fruto da miscigenação, que ficou conhecida como “democracia racial”, retomada por Gilberto Freire em Casa Grande e Senzala, ligava o país à história universal através das relações comerciais e atribuía ao regime monárquico imperial o papel de agente civilizador, tudo alicerçado em fontes primárias, comprovadamente autênticas.
A ideia era conduzir à realização de pesquisas, tanto quanto possível minuciosas e exactas, que pudessem preencher as lacunas deixadas pelas gerações de cronistas. A História Geral do Brazil, em dois volumes, de Francisco Adolfo de Varnhagen, publicados em 1854 e 1857, respectivamente, corresponde ao repto do IHGB, não obstante o silêncio institucional em torno da obra, tida por elementos do instituto como descontínua da ideia de Martius e acarinhada pelo grupo indigenista, uma vez que conferia claramente aos portugueses o papel civilizador numa narrativa isenta de sobressaltos sociais e políticos. Sem ruptura entre a colônia e a nova nação, a história de Varnhagen representa o sentimento e a consciência da família imperial, assim como o dos adeptos dum Brasil português, o que lhe tem valido, desde então, acesas críticas.
Não obstante esta postura ideológica a sua obra serviu de incentivo a outras produções nacionais. No respeitante à capitania do Espírito Santo, Varnhagen que segue de perto Gabriel Soares de Sousa teve o mérito de abrir caminho aos autores naturais da província do Espírito Santo ou a ela sentimentalmente ligados, e que produziram na segunda metade do século XIX um conjunto de monografias sobre história local.
“Daemon é o autor mais lido e, simultaneamente, o que mais tem influenciado as gerações posteriores, razão suficiente para olharmos com mais detalhe a sua Província.”
Sobre Basílio Carvalho Daemon04
A historiografia oitocentista do Espírito Santo
Em 1840 saíam à estampa em Lisboa as Memorias para servir à História ate o anno de 1817 e breve noticia estatistica da Capitania do Espirito Santo atribuídas ao governador Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira, frequentemente designado como Francisco Alberto Rubim pelos autores e historiografia capixabas. A autoria da Memória e da Breve Notícia têm sido objeto de discussão e análise. Para Estilaque Ferreira dos Santos no “Estudo Introdutório” à 2ª edição da Província do Espírito Santo: sua descoberta, história cronológica, sinopse e estatística, de Basílio Carvalho Daemon (2010), o governador Rubim é o responsável pela Memória tendo posteriormente, seu filho, Brás da Costa Rubim, quando ainda em Lisboa, promovido a publicação da mesma em homenagem a seu pai. A precedê-lo nesta tese estiveram os historiadores Renato José da Costa Pacheco e Gabriel Augusto de Mello Bittencourt que à essa mesma conclusão chegaram baseados em dois ofícios que mencionam o envio à Corte da memória e estatística, 1816 e 1820, respetivamente (BITTENCOURT, 1998). As primeiras 13 páginas contêm a súmula cronológica de fatos sobretudo de natureza político-econômica até o século XIX e colocam os jesuítas na capitania pela primeira vez no ano de 1551.
José Marcelino Pereira de Vasconcelos, Ensaio sobre a História e Estatística da Província do Espirito Santo (1858), considerado como o mais prolífero e conhecido escritor da província na época. Misael Ferreira Penna na História da Província do Espírito Santo teve a vantagem de sistematizar cronologicamente os dados conhecidos, porém dispersos por vários apontamentos e relatórios. A tendência de recolha e apresentação de dados estatísticos acentua-se no período imperial a partir de 1871, com a criação da Directoria Geral de Estatística e nos anos seguintes, supostamente, César Augusto Marques publica o Diccionario Historico, Geografico e Estatistico da Provincia do Espirito Santo (1878), obra logo reconhecida de pouca valia pelas omissões e erros.
Nesta linha Basílio Carvalho Daemon com a Província do Espírito-Santo: Sua Descoberta, História, Chronologica, Synopsis e Estatística (1879) abraça um projeto com novas características onde se nota o esforço na descrição histórica e geográfica em respeito a uma discreta objectividade crítica, não obstante a deficiente citação de autores e de fontes. Na historiografia do Espírito Santo Daemon é o autor mais lido e, simultaneamente, o que mais tem influenciado as gerações posteriores, razão suficiente para olharmos com mais detalhe a sua Província. Move-o a edificação moral da sua pátria “não indo neste nosso trabalho, senão a prova de amor pelo nosso país, e o quanto acatamos tudo que diz respeito a esta província” (DAEMON, 2010, p. 59).
Para a construção da obra, Daemon mobiliza um conjunto de enunciados que confirmam as suas proposições previamente definidas, alturas em que a preocupação de identificar a proveniência se torna essencial, recorrendo à prática do arrolamento de autores antigos e modernos, prática derivada da escolástica com a formulação da quaestio ou construção do problema, seguido da discussão ou disputatio para terminar na determinatio ou resolução. As razões para o sucesso longevo do seu trabalho assentam nos seguintes pilares: a) resumo do que há sido escrito e b) consulta de originais: “sinopse de tudo quanto há sido escrito” “e o que colhemos de documentos raros e manuscritos até o presente” (DAEMON, 2010, p. 59). Mesmo quando confessa alguma falha fá-lo de forma a conferir sentido de autenticidade e validade às suas afirmações: “Por um descuido nosso escaparam-nos os nomes destes dois jesuítas ao tomar notas para esta obra, e entre a aglomeração de livros e documentos difícil se nos torna encontra-los”, remetendo para tempo futuro a devida publicação (DAEMON, 2010, p. 166).
Na Segunda Parte “Datas e fatos históricos da Província” entre os anos de 1549 e 1759 dedicou à atuação dos jesuítas quarenta e duas entradas, num total de duzentas e cinquenta e cinco, ou seja, 16,48% do trabalho. A maior percentagem de informações corresponde aos anos do século XVI, que ocupam uma parcela de 42,11%, com 28 entradas num total de 76, para progressivamente se reduzirem. O século XVII apresenta o menor número de informações coletadas, apenas sessenta e seis, com sete delas acerca dos jesuítas, ou seja, 10,61%. Já os anos correspondentes ao século XVIII revelam uma subida no número de dados recolhidos, cento e treze, mas destes, somente três a respeito dos jesuítas, isto é, 2,65%, sendo que a última entrada do ano de 1759 é dedicada à expulsão dos jesuítas com sinopse do processo que conduziu a “esse importante fato” (DAEMON, 2010, p. 221). A escrita de Daemon tem como foco a notícia — no sentido de aviso, notificação —, será conveniente uma análise mais aprofundada da obra, nomeadamente no domínio da semântica para se perceber o sentido e o pensamento do autor, ação que se afasta dos nossos objetivos, porém podemos concluir pela breve análise realizada que o autor atribui aos inacianos um papel de destaque dentro do universo de formação e desenvolvimento da capitania.
05
Quadro-síntese: principais obras historiográficas
Um panorama das obras mais relevantes citadas ao longo do artigo, da fundação do ciclo dos cronistas à produção acadêmica recente.
| Autor | Obra | Ano | Contribuição |
|---|---|---|---|
| Pêro de Magalhães de Gândavo | História da Província de Santa Cruz | 1576 | Primeira história do Brasil; descreve a capitania como “mais fértil” |
| Gabriel Soares de Sousa | Tratado Descritivo do Brasil | 1587 | Detalhes da costa, rios e povos indígenas |
| Fernão Cardim, S.J. | Tratados da Terra e Gente do Brasil | 1625 (publ.) | Panorama geográfico e etnográfico da capitania |
| Frei Vicente do Salvador | História do Brasil | 1627 | Alimenta o mito da Serra das Esmeraldas |
| Simão de Vasconcelos, S.J. | Crônica da Companhia de Jesus | séc. XVII | Registra a chegada dos jesuítas a Vila Velha, em 1549 |
| André João Antonil, S.J. | Cultura e Opulência do Brasil | 1711 | Menciona a fazenda jesuítica de Muribeca |
| Francisco Adolfo de Varnhagen | História Geral do Brazil | 1854–1857 | Atribui aos portugueses o papel civilizador |
| Basílio Carvalho Daemon | Província do Espírito-Santo | 1879 | Obra mais lida e influente da historiografia capixaba |
| Mário Aristides Freire | A Capitania do Espírito Santo | 1945 | Crônicas cronológicas dos capitães-mores (1535–1822) |
| José Teixeira de Oliveira | História do Estado do Espírito Santo | 1950 | Nova documentação sobre o estado |
| Maria Stella de Novaes | História do Espírito Santo | 1968 | Retoma a linha historiográfica de Daemon |
| Heribaldo Lopes Balestrero | A Obra dos Jesuítas no Espírito Santo | 1979 | Primeira síntese dos 210 anos de presença jesuítica |
| José Antônio Carvalho | O Colégio e as Residências Jesuíticas no ES | 1982 | Primeira análise conceitual a partir de fontes primárias |
| Maria José dos Santos Cunha | Os jesuítas no Espírito Santo, 1549–1759 | 2015 | Tese de doutorado sobre contatos, confrontos e encontros |
06
Do púlpito às crônicas capixabas
Na Carta Pastoral de 1901, dirigindo-se a um público católico, o primeiro bispo da diocese do Espírito Santo, D. João Batista Correia Nery, interessado na dimensão apostólica da região insere na sua carta de despedida a história da evangelização no território diocesano e registra, para o efeito, o papel civilizador e salvacionista dos missionários jesuítas junto dos povos indígenas no período anterior à expulsão da Ordem no período Pombalino. Acompanhando a discussão historicista da identidade brasileira, 40 anos depois, quando se firmava o interesse pela redescoberta das fontes, a história dos inacianos no Brasil que continuava pouco conhecida, mas ganhava espaço tanto entre os seus defensores, quanto entre os detractores, D. João Nery organiza um artigo com importantes informações sobre a presença destes missionários e respetivas missões no Sul do Estado, recolhidas do Livro do Tombo de Itapemirim e publicadas pelo IHGES em 1940, por ocasião das comemorações no 4º centenário da fundação da Companhia de Jesus (NERY, 1940).
Mário Aristides Freire com a Capitania do Espírito Santo. Crônicas da vida capixaba no tempo dos capitães-mores (1535-1822), publicado pela primeira vez em 1945, constitui novo esforço de organização sequencial cronológico, mas destarte com preocupação de fidelidade documental. Como indica o nome, as Crônicas, os capítulos resultam dos artigos redigidos para a revista Vida Capixaba, o que em termos de produto final deixa no leitor o aspeto de textos truncados e autônomos, enriquecidos na 2ª edição com a publicação dos apontamentos manuscritos do autor. Os organizadores Fernando Achiamé e Reinaldo Santos Neves optaram pela “transcrição do texto […] realizada a partir do original […] no alto as páginas impressas da 1ª edição da obra, tendo abaixo as extensas anotações manuscritas de Mário Freire, feitas em caligrafia miúda e nítida” (FREIRE, 2006, p. 11). Freire revela-se conhecedor da documentação disponível e das opiniões dos autores que a haviam trabalhado, pois consegue articular com minudência as suas leituras e estabelecer conexões que lhe permitiram (re)criar um quadro sobre a presença e o contributo dos jesuítas para o progresso da capitania, em harmonia com as conclusões de autores de referência nacional e da obra de Serafim Leite, cujo percurso público se iniciara em 1938.
O novo alento surgiu com a encomenda do governo capixaba ao historiador do Rio de Janeiro, José Teixeira de Oliveira, da qual resultou a História do Estado do Espírito Santo (1950), que apresenta nova documentação, mas que, no respeitante à ação dos inacianos no território, pouco acresce. Cabe porém ressaltar que aparece reforçada a imagem pioneira da Ordem na construção do processo de colonização capixaba. Com a História do Espírito Santo (1968) da escritora e historiadora Maria Stella de Novaes retoma-se a linha ao estilo de Basílio Daemon, embora redigida num formato mais fluído e nem as publicações que ocasionalmente apareceram nas revistas do IHGB ou na congénere de Vitória do IHGES prestam novos dados ou leituras ao existente e conhecido.
07
A universidade e a virada acadêmica
A partir da criação em 1954 do primeiro instituto universitário Espírito Santense a que se seguiu a federalização em 1961 de que resultou a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) abriu-se o caminho para o desenvolvimento da produção de trabalhos de cariz acadêmico sobre as temáticas relativas ao Estado, como seja o caso da tese de mestrado em História da Arte de José Antônio Carvalho, O Colégio e as Residências Jesuíticas no Espírito Santo (CARVALHO, 1982), com estudo de caso de cinco residências, a de Vitória e as das antigas aldeias de São João Batista, Nossa Senhora da Conceição de Guarapari, Reis Magos e Nossa Senhora da Assunção. Pela primeira vez, a intervenção da Companhia de Jesus no Espírito Santo é alvo duma análise conceitual a partir das fontes primárias entretanto publicadas pelo historiador da Ordem Pe. Serafim Leite, S. J., entre os anos de 1938–1950 e as cartas jesuíticas editadas a complementar o estudo dos vestígios arquitetônicos. Este olhar além da cientificidade epistemológica permitiu identificar descontinuidades ao nível dos saberes na linha do conceito “arqueológico” que em Foucault representa a sua forma de construir a história.
No mesmo ano saía com características diferentes A Obra dos Jesuítas no Espírito Santo (BALESTRERO, 1979). Trata-se da primeira tentativa de síntese dos 210 anos de presença jesuítica na capitania, escrita num estilo laudatório e na lógica duma visão idealizada que foi comum a outros autores. O final do séc. XX e o início deste trouxeram outras leituras e abordagens no âmbito da dispersão de paradigmas propostos pela antropologia da história, a história das mentalidades e a “nova história”. Concomitantemente, o Projeto Resgate facilitou a amplitude documental para análise teórica, as comemorações dos “500 anos do Brasil” e a procura de estudos pós-graduados materializaram-se em novas produções sob proposta de novos critérios de análise, ajustando-se a teoria e a metodologia às novas tendências. A série de textos de Nara Saletto reunidos em livro e publicados pelo Arquivo Público Estadual na coleção consagrada à memória capixaba inaugura uma nova fase de reflexão acerca do papel dos jesuítas na capitania.
Com uma produção escrita relativa à sua presença na terra, suas fontes primárias de acesso ao desenrolar do processo de colonização, assim como aos povos indígenas na fase pré e pós-início da colonização, são praticamente incontornáveis estendendo sua presença a outros trabalhos: Moranduba – Tupinambá & Amboaé: Arqueologia do Espírito Santo, de Reritiba a Anchieta (SOUZA, 2010) e A Serra das Esmeraldas: Cartografia, Imaginário e Conflitos Territoriais na Capitania do Espírito Santo (Séc. XVII) (REIS, 2011). As intervenções de restauro nas igrejas das duas principais aldeias jesuíticas, Nossa Senhora da Assunção, em Reritiba, e dos Reis Magos, na aldeia homônima, marcam o interesse da arqueologia perante as marcas físicas da presença jesuítica. Em campo mais amplo, os trabalhos das últimas décadas têm enriquecido o conhecimento e avançado para as áreas das estratégias ou práticas missionárias, como sejam a música vocal, o ensino, a arquitectura, a literatura, a abordagem dos aspectos produtivos e comerciais à escala do padroado português, ou a análise ao projeto e prática da missionação em contexto de crise na viragem do século XVI para XVII.
08
Linha do tempo — marcos da presença jesuítica e da sua historiografia
Chegada dos jesuítas à Bahia; Vila Velha, “com invocação do Espírito Santo”, é visitada pelo padre Leonardo Nunes.
Fixação do padre Afonso Brás e do irmão Simão Gonçalves em Vitória, já principiada como vila.
Construção da nova igreja de Santiago, com mobilização da população local.
Expulsão dos jesuítas do território, no período Pombalino, encerrando 210 anos de presença na capitania.
D. João Batista Correia Nery insere na Carta Pastoral o papel civilizador dos missionários jesuítas.
Criação do primeiro instituto universitário espírito-santense e sua federalização, dando origem à UFES.
Maria José dos Santos Cunha defende a tese Os jesuítas no Espírito Santo, 1549-1759: contatos, confrontos e encontros, na Universidade de Évora.
09
Fontes primárias inéditas: arquivos e livros de tombo
Em nossa investigação, da qual resultou Os jesuítas no Espírito Santo, 1549-1759: contatos, confrontos e encontros (CUNHA, 2015), interessaram-nos os intercâmbios e interações das relações entre os colonizadores, nos quais se encontram os jesuítas e entre estes e os colonizados. No centro do trabalho, aparece, pois, decisiva a questão de como entenderam e propuseram o estabelecimento da harmonia entre o sujeito e a autoridade, fundada no sentido social do homem proposto por Suárez, o teólogo jesuíta que influenciou o pensamento político moderno, mas também como usaram o variado leque de projetos, estratégias e recursos, comparativamente à sua ação missionária no restante território.
São estas vertentes que configuram a arquitetura desse trabalho com a ajuda de fontes inéditas, da releitura cuidadosa das conhecidas, de metodologias e as perspetivas de trabalho dos últimos anos. Tecidas estas considerações, considere-se outro aspeto, o de distinguir acontecimentos que marcaram a experiência da Ordem a partir da atividade missionária correlacionada com as políticas régias e religiosas da época e não tanto como expressão duma abordagem sequencial cronológica como a organizada por Daemon (1879), Freire (1945), Oliveira (1950) e Balestrero (1979). Centrou-se o olhar sobre as relações entre os diferentes grupos em presença, em sincronia com as palavras dos próprios, recuperadas na documentação, principalmente a partir do corpo epistolar e relatórios jesuíticos, bem como dos materiais encontrados no AHU respeitantes à administração da capitania e diretamente ligados à Companhia de Jesus.
Encontramos na produção escrita do Pe. José de Anchieta, realizada durante a sua permanência no Espírito Santo, indicações úteis que projetaram luz sobre situações que não havíamos previamente esclarecido, pelo que os seus escritos de caráter literário, não obstante uma forte componente estética e religiosa, possuem relevantes dados para a recuperação da memória histórica, em particular para os anos de 1587 a 1597, altura na qual a sua intervenção missionária se faz mais diretamente sentir sobre as pessoas e os eventos da capitania.
No ARSI, arquivo da Companhia de Jesus em Roma, foi localizado um relatório contabilístico inédito sobre o colégio de Santiago, relativo ao século XVII — dupla fonte administrativa e econômica ainda pouco explorada pela historiografia capixaba.
Em “Aldeia dos Reis Magos”, texto transcrito por Serafim Leite inicialmente na Revista nº 8 do IPHAN de 1944, encontramos a descida de um grupo de índios Aimorés, do grupo linguístico macro-jê, para a aldeia de Reis Magos, assim como a entrada, a partir desta missão ao sertão até alturas do alto rio Doce junto dos índios Paranaubis, que pudemos confrontar com a versão publicada na França pelo jesuíta Pierre du Jarric em 1610, cujo título longo traduzimos “História das coisas mais memoráveis ocorridas tanto nas Índias Orientais, quanto em outros países descobertos pelos portugueses, estabelecendo o progresso da fé cristã e católica: e principalmente o que os religiosos da Companhia de Jesus neles fizeram e suportaram com essa finalidade: desde que eles aí chegaram até ao ano de 1600”.
Considerámos relevante a informação indiretamente chegada a nós e transcrita do Livro do Tombo de Itapemirim, obra manuscrita pelo padre Manuel Pires Martins com data de 1880, que nos permitiu alargar espacialmente o avanço e a penetração missionária inaciana nas regiões sul e sudoeste da capitania em direção aos atuais estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Manuel Pires Martins exerceu o seu ministério em várias paróquias do sul do estado do Espírito Santo, nomeadamente nas atuais cidades de Anchieta, Cachoeiro de Itapemirim e Itapemirim. Precisamente, na primeira cidade encontrámo-lo entre os anos de 1866 a 1868 em cartas dirigidas a três presidentes da Província, Alexandre Rodrigues da Silva Chaves, Carlos de Cerqueira Pinto e Francisco Leite Bittencourt Sampaio, respetivamente. As detalhadas missivas exprimem sempre a necessidade urgente de reformas na igreja matriz e nas áreas adjacentes do ex-conjunto arquitetônico jesuítico e não apenas nas que estão sob a responsabilidade do vigário. As cartas fazem parte do acervo do Arquivo Público do ES, manuscritos do Grupo Documental Governadoria, Série Histórica (A.P.E.S., Série Histórica), Livro 132, datadas de 27/05/1866, 30/04/1867, 04/08/1867 e 14/02/1868.
Em breve análise comparativa, dela ressaltam as caraterísticas empreendedoras e indagadoras da sua personalidade que o levaram a procurar ser mais diligente, e melhor informado, que os antecessores vigários. A experiência, o conhecimento direto e o gosto pela escrita e a preservação da memória histórica levaram-no à compilação de documentos e de tradições na redação que o próprio intitulou de Livro do Tombo de Itapemirim. As peripécias deste tomo desde as mãos do autor à atualidade merecem ser passadas a escrito, contudo a contenção de laudas deixa para outras calendas a tarefa, fica a notação!
Da mesma obra foi retirado um outro texto com o relato, buscado na tradição, sobre a chegada dos jesuítas a Reritiba e cujos dados antropológicos, sociológicos, linguísticos e toponímicos além de historicamente consistentes e plausíveis autenticam a narrativa.
10
O destino dos livros de tombo
Sobre o arresto dos bens imóveis jesuíticos após a expulsão dos territórios nacionais tivemos igualmente a oportunidade de proceder a análise comparativa entre trinta folhas dactilografadas com o título Arrematação de bens na cidade de Vitória pertença dos jesuítas (IHGB, Lata 124, Pasta 3) oferecidas por Daemon ao IGHB com a relação existente no AHU e disponível no Arquivo Público Estadual pelo Projeto Resgate. Pelo mesmo Arquivo em Vitória, graças à iniciativa de Mário Aristides Freire, foi publicado o Livro do Tombo da vila de Nova Almeida, começado em cumprimento da disposição régia de 1759 que alçava a vila a aldeia indígena dos Reis Magos, com transcrição adaptada à ortografia de 1945.
Pior destino teve o seu correlato Tombo da Vila Nova de Benavente, aberto para o concelho nascido nas terras pertencentes à aldeia de Iriritiba ou Rerigtibá, do qual apenas nos chegou notícia da sua existência por meio de conhecimento por descrição no sentido que lhe atribuiu Bertrand Russell por oposição ao conhecimento adquirido por experiência direta. Durante a 2ª visita pastoral de D. José Caetano da Silva Coutinho ao Espírito Santo, no ano de 1819, quis o bispo indagar da legitimidade e razões da ocupação do ex-edifício jesuítico pela Câmara Municipal e pelo Ouvidor, tanto em Benevente, como em Nova Almeida, e escreve: “tive ocasião de ver certidões autênticas, tiradas a requerimento do infeliz vigário padre Inácio, da provisão do Conselho Ultramarino do ano de 1755, e do alvará de D. Pedro de 1760, e do provimento do ouvidor Sales em 1756, donde constava a criação da vila de Benevente na aldeia de Reritiba”.
No mesmo sentido as notas da visita do Imperador D. Pedro II à vila de Benevente no ano de 1860 referem-se igualmente a estes registos camarários: “[Corri] os livros do arquivo e a data mais antiga é de 1750. Tem um registro [dos] índios dessa data. Há livro de tombo das terras que se mandou copiar em novo livro que foi aberto; mas apenas começado a escrever, não se continuando, segundo disse o secretário por ser quase ininteligível a letra do antigo livro do tombo” (ROCHA, 2008, p. 222).
Do corpo documental evidenciam-se o conjunto das fontes constituído pelas Cartas Jesuíticas e demais documentação proveniente dos arquivos da Ordem publicadas na coleção “Reconquistando o Brasil”, 2ª Série, que reproduzem as editadas pela Imprensa Nacional do Brasil, no século XIX, a que se juntaram comentários atualizados e outras páginas desde então identificadas e relacionadas com os respetivos autores. A releitura daquelas fontes, abundantemente citadas desde a sua publicação, atendendo ao sentido de cada frase ao interno da narrativa e tendo-se em consideração o filtro de quem escreve, sobre quem escreve e de para quem escreve, permite este exercício chamar a atenção para detalhes de diferentes textos que se entrecruzam. Longe de tornar a leitura monótona e repetitiva, os resultados revelam a rede de comunicações existentes e ajudam a aproximar-nos do sucedido.
“O acontecimento não é o que se pode ver ou conhecer dele, mas o que ele se tornar quando o olhamos.”
Sobre a renovação historiográfica das missões jesuíticas11
Considerações finais
Sendo que a evangelização, missão e construção social são temas primordiais no âmbito da instalação de estados europeus no continente americano e para se ultrapassar a linha de estudo que tem separado a Europa da América, ou seja, os Europeus dos outros, entendemos que as missões jesuíticas e as variantes locais com as quais tiveram de lidar os jesuítas permitem dimensionar o seu papel como agentes colonizadores. Para se compreender a configuração da simultaneidade do seu sistema “romano” e “americano” em obediência ao apelo evangélico de “e até aos confins do mundo”, segundo a expressão de Atos 1:8, no qual se prefigurou desde a formação a Companhia de Jesus, pode o estudioso alinhar-se na intercessão de saberes da história religiosa da Europa Moderna, em particular a das missões, os estudos da história do Espírito Santo, alimentados no que se conhece dos registros deixados pelos agentes colonizadores e pela área das relações internacionais. À semelhança da câmara fotográfica, dando maior abertura ao obturador para focalizar melhor, diremos que do todo referido se abarcam as políticas missionárias e as relações entre o poder e a religião na capitania do Espírito Santo, modeladoras de consciências, de comportamentos e de fazerem da maioritária massa humana indígena cultuadores fiéis do Deus monoteísta católico e súbitos do reino de Portugal.
A história das políticas missionárias jesuíticas conheceu uma renovação historiográfica, nestes últimos anos, em particular no domínio das missões jesuíticas propondo novas abordagens, tanto do lado da literatura missionária (estudos retóricos e narrativos sobre as crônicas missionárias e da correspondência), quanto do ponto de vista da exploração etnográfica e de antropologia social da massa documental, incrementadas por análises sociológicas e políticas. Esta apropriação deu origem a uma redefinição das fontes que conduziram à reavaliação da história do fenômeno missionário e das instituições encarregues da sua promoção. Ao se localizar o trabalho historiográfico entre a linguagem do passado e a presente do historiador, modificou a concepção tradicional do fato. Nesta perspectiva, o acontecimento não é o que se pode ver ou conhecer dele, mas o que ele se tornar quando o olhamos, esta abordagem desloca, assim, o foco do historiador. Até aqui tendia-se a limitar a investigação à autenticação dos fatos relatados e respetiva inserção numa perspetiva causal. Agora trata-se de procurar os traços deixados pelo acontecimento desde a sua manifestação, considerando-se estes num sentido que permanece aberto.
De um olhar global destacamos a missão do Espírito Santo face à conjuntural criação duma colônia permanente portuguesa no Rio de Janeiro, depois de expulsos os franceses e dominados os povos da confederação dos Tamoios. Da visão dos governantes e dos jesuítas emerge, então, o seu papel na defesa do litoral e das posições portuguesas nos períodos de ataques por forças estrangeiras. Roma, Lisboa e Brasil formam um triângulo onde mais do que posições de supremacia estabelecidas entre si, circulam iniciativas de negociação e o Espírito Santo apresenta-se como uma periferia consciente da distância entre a ideia do projetado e a respectiva realização.
Na cartografia da implantação e movimentação jesuítica na capitania, foi possível constatar que a presença dos mesmos dependia da ocupação do solo, maioritariamente procedente de doações. Em consequência, a questão fundiária esteve no cerne das relações entre os jesuítas e os poderes régios e privados. Derivada desta questão, os privilégios de que usufruíam pela isenção de impostos constituíram-se como fontes de discórdia e queixas por parte dos grupos socioeconômicos.
Tendo-se em conta o pensamento de que a associação ou mistura das informações contidas nos textos possa despertar no leitor a atenção, tornando-se anfitrião dos mesmos, sem que jamais deles seja proprietário, considera-se que as primeiras representações da alteridade contidas na correspondência jesuítica reunida, bem como as imagens espelhadas nos autos de José de Anchieta e redigidos no Espírito Santo, se constituíram como primeira etapa da manipulação intelectual dos espaços e gentes a evangelizar. E, perante perspectivas de análise tão abrangentes, pretende-se servir de elemento de incentivo ao aprofundamento de outras discussões.
Referências
Referências
- ANTONIL, André João. Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas. Livro IV, Cap. I. Lisboa: Officina Real, 1711.
- BALESTRERO, Heribaldo Lopes. A Obra dos Jesuítas no Espírito Santo. Viana: s/e, 1979.
- BARBOZA, Januário da Cunha. “Discurso proferido na cerimónia de criação do IHGB”. Revista do IHGB. T. I, v. 1, 1839, pp. 9-18.
- BITTENCOURT, Gabriel. Historiografia Capixaba & Imprensa no Espírito Santo. Vitória: Edit, 1998.
- CARDIM, Fernão, S.J. Tratados da terra e gente do Brasil. Transcrição do texto, introd. e notas Ana Maria de Azevedo. 1ª ed. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.
- CARVALHO, José Antônio. O Colégio e as Residências dos Jesuítas no Espírito Santo. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1982.
- CUNHA, Maria José dos Santos. Os jesuítas no Espírito Santo, 1549-1759: contatos, confrontos e encontros. Tese de doutorado apresentada à Universidade de Évora, 2015.
- DAEMON, Basílio Carvalho. Província do Espírito Santo sua descoberta, história cronológica, sinopses e estatística. Coord. Maria Clara Medeiros Santos Neves. 2ª ed. Col. Canaã 12. Vitória: SECULT; APEES, 2010.
- FREIRE, Mário Aristides. A Capitania do Espírito Santo. 2ª ed. Org. Fernando Achiamé e Reinaldo Santos Neves. Vitória – ES: Flor & Cultura, 2006.
- GÂNDAVO, Pêro de Magalhães de. História da Província de Santa Cruz a que Vulgarmente Chamamos Brasil. Odivelas: Assírio & Alvim, 2004.
- “Historia dos Collegios do Brasil”. In Annaes da Bibliotheca Nacional. Nº XIX. Rio de Janeiro: Typographia Leuzinger, 1897, p. 77-138.
- KHALED Júnior, Salah Hassan. Horizontes Identitários: a construção da narrativa nacional brasileira pela historiografia do século XIX. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2010.
- MARTIUS, Karl Friederich Philipp von. “Como se deve escrever a Historia do Brazil”. RIHGB. Tomo 6. Rio de Janeiro, 1845, pp. 381-403.
- MATTOS, Raymundo José da Cunha. “Dissertação ácerca do systema de escrever a história antiga e moderna do imperio do Brasil”. Revista do IHGB. Nº 26. Rio de Janeiro: Typographia de Luiz dos Santos, pp. 121-143.
- NERY, João. Revista do IHGES. nº 13. Vitória: Imprensa Oficial do Estado do Espírito Santo, Setembro de 1940, pp. 26-40.
- OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1951.
- REIS, Fábio Paiva. A Serra das Esmeraldas: Cartografia, Imaginário e Conflitos Territoriais na Capitania do Espírito Santo (Séc. XVII). Dissertação apresentada à PUC/SP, 2011.
- RIBEIRO, Luiz Cláudio Moisés. O comércio e a navegação na capitania portuguesa do Espírito Santo-Brasil (sec. XVI-XVIII). Apresentação feita no XXX Encontro da Associação Portuguesa de História Económica e Social: Crises Económicas Crises Sociais, 2010.
- ROCHA, Levy. Viagem de D. Pedro II ao Espírito Santo. 3ª ed. Col. Canaã 7. Vitória: Secretaria da Educação, Secretaria da Cultura, Arquivo Público, 2008.
- RUBIM, Francisco Alberto. Memorias para servir à História ate o anno de 1817 e breve noticia estatistica da Capitania do Espirito Santo porção integrante do Reino do Brasil escriptas em 1818 e editadas em 1840 por Hum Capixaba. Lisboa: Nevesiana, 1840.
- SALETTO, Nara. Donatários, colonos, índios e jesuítas – o início a colonização do Espírito Santo. Col. Canãa 4. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1998.
- SALVADOR, Fr. Vicente do. História do Brasil 1500–1627. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982.
- SOUSA, Gabriel Soares de. Tratado descriptivo do Brasil. 2ª ed. Rio de Janeiro: Typographia de João Ignacio da Silva, 1879.
- SOUZA, Letícia Moura Simões de. Moranduba – Tupinambá & Amboaé: Arqueologia do Espírito Santo, de Reritiba a Anchieta. Dissertação de mestrado apresentada na UFRJ, 2010.
- The admirable adventures and strange fortunes of Master Antonie Knivet, which went with Master Thomas Candish in his second voyage to the south sea. 1591. In Purchas, Samuel (editor), Hakluytus Posthumus or Purchas His Pilgrimes, Vol. XVI. Glasgow: James McLehose and Sons, 1906.
- VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História Geral do Brazil, antes da sua separação e independência de Portugal. Vol. 1. 2ª ed. Rio de Janeiro: Casa de E. & H. Laemmert, 1877.
- VASCONCELOS, Simão de. Crônica da Companhia de Jesus. 3ª ed. Vol. I. Col. Dimensões do Brasil. Nº 5. Petrópolis: Editora Vozes, 1977.
- WALLERSTEIN, Immanuel. The Modern World – System I, capitalist agriculture and the origins of the European world economy in the sixteenth century. Berkeley and Los Angeles: University of California Press; London: University of California Press, 2011, p. 67.


