Anchieta-ES, cidade patrimônio: o ensino da história e cultura
Publicamos na íntegra a dissertação de mestrado de Ivan Petri Florentino, que investiga como o patrimônio histórico-cultural de Anchieta-ES pode ser utilizado como instrumento pedagógico no ensino de História, fortalecendo memória, cultura e identidade local.
Ivan Petri Florentino ¹


Patrimônios históricos de Anchieta-ES, objeto de estudo da dissertação “Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: o Ensino da História e Cultura”. Fonte: acervo da pesquisa, 2026.
| Título | Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: o Ensino da História e Cultura |
| Autor | Ivan Petri Florentino |
| Orientadora | Prof.ª Dra. Márcia Moreira de Araújo |
| Instituição | Centro Universitário Vale do Cricaré (UNIVC) |
| Programa | Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Educação |
| Defesa | 29 de abril de 2026 |
| Período de campo | 10 a 30 de novembro de 2025 |
| Produto educacional | Roteiro itinerante em formato de e-book, com QR Codes vinculados a vídeos educativos |
Resumo
A presente pesquisa aborda a Educação Patrimonial como estratégia pedagógica voltada ao fortalecimento da memória, da cultura e da identidade local no município de Anchieta-ES. O estudo teve como objetivo analisar de que maneira o patrimônio histórico-cultural da cidade contribui para o ensino de História e cultura, utilizando o território como espaço educativo e os patrimônios históricos como instrumentos pedagógicos no processo de ensino-aprendizagem. A investigação fundamenta-se em autores como Jacques Le Goff, Lev Vygotsky e Edgar Morin, Maria Horta e Françoise Choay, que discutem memória coletiva, educação crítica, construção sociocultural do conhecimento e complexidade humana. A pesquisa possui abordagem qualitativa, desenvolvida por meio de análise documental, levantamento bibliográfico, observação de campo, rodas de conversa e aplicação de questionários com professores e moradores do município de Anchieta-ES. O método fundamenta-se na pesquisa-ação, compreendida como estratégia investigativa que articula produção de conhecimento e intervenção na realidade estudada, conforme Thiollent (2011). Os resultados evidenciaram que a Educação Patrimonial favorece o reconhecimento da identidade cultural anchietense, fortalece o sentimento de pertencimento e amplia as possibilidades metodológicas no ensino de História. Como produto educacional, foi elaborado o roteiro itinerante intitulado Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: Roteiro Itinerante como Estratégia para a Educação Patrimonial, História e Cultura. O material, em formato de e-book, contempla estratégias de acesso ao patrimônio local, incluindo QR Codes com vídeos educativos vinculados aos patrimônios históricos presentes no roteiro. Conclui-se que a valorização do patrimônio histórico-cultural contribui significativamente para uma educação crítica, contextualizada e comprometida com a preservação da memória coletiva e das tradições locais.
Palavras-chave: Educação Patrimonial; Memória Afetiva; Patrimônio Histórico-Cultural; Ensino de História; Identidade Cultural.
Abstract
This research addresses Heritage Education as a pedagogical strategy aimed at strengthening memory, culture, and local identity in the municipality of Anchieta. The study sought to analyze how the city’s historical and cultural heritage contributes to the teaching of History and culture, using the territory as an educational space and heritage sites as pedagogical tools in the teaching-learning process. The investigation is grounded in the studies of Jacques Le Goff, Lev Vygotsky, Edgar Morin, Maria de Lourdes Parreiras Horta, and Françoise Choay, whose works discuss collective memory, critical education, sociocultural knowledge construction, and human complexity. The research adopted a qualitative approach, developed through document analysis, bibliographic review, field observation, discussion circles, and questionnaires applied to teachers and residents of Anchieta-ES. The methodology was based on action research, understood as an investigative strategy that combines knowledge production with intervention in the studied reality, according to Thiollent (2011). The results demonstrated that Heritage Education promotes the recognition of Anchieta’s cultural identity, strengthens the sense of belonging, and expands methodological possibilities in History teaching. As an educational product, an itinerant guide entitled Anchieta-ES, Heritage City: An Itinerant Guide as a Strategy for Heritage Education, History, and Culture was developed. The material, presented in e-book format, includes strategies for accessing local heritage, featuring QR Codes linked to educational videos related to the historical heritage sites included in the itinerary. It is concluded that valuing historical and cultural heritage significantly contributes to a critical, contextualized, and socially committed education focused on preserving collective memory and local traditions.
Keywords: Heritage Education; Affective Memory; Historical and Cultural Heritage; History Teaching; Cultural Identity.
01
Introdução
A Educação Patrimonial vem se consolidando como importante estratégia pedagógica no contexto educacional contemporâneo, especialmente no ensino de História, por possibilitar a aproximação entre os sujeitos e os patrimônios históricos, culturais e sociais presentes em sua realidade cotidiana. Nessa perspectiva, o patrimônio deixa de ser compreendido apenas como vestígio material do passado e passa a assumir papel significativo na construção da memória coletiva, da identidade cultural e do sentimento de pertencimento social (HORTA; GRUNBERG; MONTEIRO, 1999).
O município de Anchieta-ES apresenta um relevante conjunto de patrimônios históricos, culturais e religiosos que expressam diferentes aspectos da formação histórica e social da comunidade local. Igrejas, monumentos, edificações históricas, manifestações culturais, tradições populares e narrativas orais constituem importantes referências da herança cultural anchietense, além de representarem possibilidades pedagógicas para o ensino de História (CHOAY, 2006).
Nesse contexto, a Educação Patrimonial apresenta-se como importante instrumento de alfabetização cultural, permitindo aos sujeitos reconhecerem sua participação na construção histórica da sociedade em que vivem. Conforme destaca Le Goff (1990), a memória coletiva constitui elemento essencial na formação das sociedades, sendo o patrimônio uma representação simbólica das experiências históricas acumuladas ao longo do tempo.
A pesquisa também dialoga com os pressupostos de Freire (1996), ao compreender a educação como prática crítica, reflexiva e contextualizada, capaz de promover a valorização das experiências socioculturais dos estudantes. Dessa forma, o ensino de História ultrapassa práticas tradicionais centradas apenas na memorização de conteúdos e passa a valorizar os espaços de vivência, as experiências culturais e os saberes presentes na realidade social dos educandos.
Além disso, a teoria sociocultural de Vygotsky (1998) contribui para compreender o patrimônio cultural como mediador no processo de construção do conhecimento, considerando que a aprendizagem ocorre a partir das interações sociais e culturais estabelecidas pelos sujeitos em seu contexto histórico. Assim, os patrimônios culturais tornam-se importantes recursos pedagógicos capazes de favorecer experiências educativas mais significativas, participativas e contextualizadas.
Diante dessa realidade, a presente pesquisa parte da seguinte problemática: de que maneira o patrimônio histórico-cultural de Anchieta-ES pode ser utilizado como instrumento pedagógico no ensino de História, promovendo pertencimento social, valorização cultural e reconhecimento da memória histórica local?
Dessa forma, o estudo teve como objetivo analisar o potencial educativo do patrimônio histórico-cultural do município de Anchieta-ES como estratégia pedagógica voltada ao ensino de História, valorizando a memória social, a cultura local e o fortalecimento da identidade comunitária.
Para alcançar esse propósito, a pesquisa buscou identificar as possibilidades pedagógicas da Educação Patrimonial no ensino de História, compreender a relação entre patrimônio, memória e identidade cultural no contexto anchietense, além de analisar como os patrimônios históricos locais podem contribuir para práticas educativas mais contextualizadas, participativas e voltadas à valorização da história e da cultura local.
02
Educação Patrimonial, Memória e Identidade Cultural
A Educação Patrimonial constitui-se como um campo interdisciplinar voltado à valorização, preservação e reconhecimento dos bens culturais materiais e imateriais presentes na sociedade. Sua proposta ultrapassa a simples preservação física dos monumentos históricos, envolvendo também processos educativos relacionados à memória, à identidade cultural e à formação cidadã (HORTA; GRUNBERG; MONTEIRO, 1999).
Segundo Horta, Grunberg e Monteiro (1999), a Educação Patrimonial possibilita ao indivíduo desenvolver a capacidade de leitura crítica do patrimônio cultural, compreendendo-o como elemento vivo da história e da cultura de determinado povo. Nesse sentido, o patrimônio passa a ser reconhecido como recurso pedagógico capaz de aproximar os sujeitos de sua própria realidade histórica.
A discussão sobre memória e patrimônio também é aprofundada por Le Goff (1990), ao afirmar que a memória coletiva constitui importante mecanismo de construção social. Para o autor, o patrimônio cultural representa vestígios históricos que possibilitam às sociedades compreenderem suas origens, tradições e transformações ao longo do tempo.
A partir dessa perspectiva, a Educação Patrimonial contribui significativamente para o fortalecimento da identidade cultural, especialmente em comunidades marcadas por forte herança histórica e cultural. O patrimônio torna-se, portanto, instrumento de valorização das experiências sociais, das narrativas locais e das manifestações culturais presentes no cotidiano da população (FONSECA, 1997).
Conforme ressalta Choay (2006), o patrimônio cultural também possui dimensão simbólica e política, uma vez que sua preservação envolve escolhas sociais relacionadas àquilo que uma comunidade considera importante manter vivo para as futuras gerações.
Nesse contexto, a escola assume papel fundamental no desenvolvimento de práticas educativas voltadas à valorização do patrimônio histórico-cultural. A Educação Patrimonial possibilita que estudantes reconheçam os espaços urbanos, monumentos, tradições e memórias locais como parte integrante de sua própria trajetória histórica (MENESES, 2012).
Além disso, a Educação Patrimonial favorece o desenvolvimento da consciência histórica dos sujeitos, permitindo que indivíduos e comunidades reconheçam o patrimônio cultural como parte integrante de sua trajetória social e coletiva. Nesse processo, a memória deixa de ser compreendida apenas como lembrança do passado e passa a atuar como elemento fundamental na construção das identidades culturais e na preservação das experiências históricas vividas pelas diferentes gerações (LE GOFF, 1990).
A valorização dos patrimônios culturais também contribui para o fortalecimento do sentimento de pertencimento social, especialmente em comunidades que possuem forte ligação com suas tradições, manifestações culturais e espaços históricos. Ao reconhecer os patrimônios locais como símbolos de memória e identidade, os sujeitos passam a desenvolver maior consciência sobre a importância da preservação cultural e da participação coletiva na manutenção desses bens históricos (FONSECA, 1997).
Nesse contexto, a Educação Patrimonial apresenta-se como importante estratégia educativa para aproximar os estudantes de sua própria realidade sociocultural, promovendo experiências de aprendizagem mais contextualizadas e significativas. A utilização dos patrimônios culturais no ambiente escolar favorece práticas pedagógicas investigativas, participativas e interdisciplinares, possibilitando que os estudantes compreendam a relação entre memória, cultura e identidade na construção da história local e coletiva (FREIRE, 1996).
03
O Ensino de História e o Patrimônio Cultural como Prática Pedagógica
O ensino de História enfrenta, historicamente, desafios relacionados à fragmentação dos conteúdos e ao distanciamento entre os temas abordados em sala de aula e a realidade vivida pelos estudantes. Muitas vezes, o ensino tradicional limita-se à transmissão de datas, fatos e personagens desvinculados do contexto social dos educandos (BITTENCOURT, 2005).
Nesse cenário, a Educação Patrimonial apresenta-se como possibilidade metodológica inovadora, permitindo que o patrimônio cultural seja utilizado como recurso pedagógico no processo de construção do conhecimento histórico (BEZERRA, 2016).
Para Freire (1996), o processo educativo deve estar articulado à realidade social dos sujeitos, promovendo uma aprendizagem significativa e crítica. Assim, o ensino de História precisa dialogar com os espaços de vivência dos estudantes, valorizando suas experiências culturais e sociais.
A teoria sociocultural de Vygotsky (1998) também contribui para essa discussão ao enfatizar que o desenvolvimento humano ocorre a partir das interações sociais e culturais estabelecidas pelos indivíduos. O patrimônio histórico-cultural, nesse contexto, atua como mediador simbólico no processo de aprendizagem.
O município de Anchieta-ES apresenta um significativo conjunto patrimonial que pode ser utilizado como instrumento educativo no ensino de História. Igrejas, museus, monumentos, casarões históricos, manifestações culturais e tradições religiosas constituem elementos capazes de ampliar as possibilidades pedagógicas no ambiente escolar (MEDEIROS, 2020).
Além disso, o patrimônio cultural possibilita uma aprendizagem mais dinâmica e participativa, permitindo que os estudantes desenvolvam experiências educativas para além dos limites físicos da escola. As visitas monitoradas, os roteiros históricos e as atividades de campo favorecem o desenvolvimento da percepção crítica sobre a história local e fortalecem o sentimento de pertencimento em relação à comunidade (SILVEIRA FILHO, 2013).
A utilização do patrimônio cultural no ensino de História e cultura favorece abordagens interdisciplinares, contribuindo para uma compreensão mais ampla dos aspectos históricos e socioculturais da sociedade.
Essa integração amplia as possibilidades metodológicas no contexto escolar e contribui para que os estudantes compreendam os fenômenos históricos de forma mais ampla e contextualizada, relacionando-os às dimensões sociais, culturais e territoriais da comunidade em que vivem (MORIN, 2000).
Nesse sentido, a Educação Patrimonial contribui para romper com práticas pedagógicas tradicionais baseadas apenas na memorização de conteúdos, promovendo experiências educativas mais investigativas e participativas. Ao entrar em contato direto com os patrimônios históricos e culturais, os estudantes passam a desenvolver maior interesse pelos conteúdos históricos, tornando-se sujeitos mais ativos no processo de construção do conhecimento (FREIRE, 1996).
No contexto de Anchieta-ES, o patrimônio histórico-cultural apresenta significativo potencial para o desenvolvimento de práticas pedagógicas voltadas à valorização da história local e da identidade cultural da comunidade. A utilização desses espaços históricos como ambientes educativos possibilita aos estudantes compreenderem as transformações sociais e culturais ocorridas ao longo do tempo, fortalecendo o reconhecimento da memória coletiva e a preservação das tradições culturais presentes no município (MEDEIROS, 2020).
“O patrimônio deixa de ser apenas um bem preservado e passa a ser compreendido como fonte de conhecimento, identidade e pertencimento social.”
Fundamentação teórica da pesquisa, a partir de Le Goff (1990)04
Educação Patrimonial em Anchieta-ES: Possibilidades Pedagógicas no Ensino de História
A Educação Patrimonial, quando inserida no contexto escolar, possibilita a construção de práticas pedagógicas mais significativas, pois aproxima os conteúdos trabalhados em sala de aula da realidade histórica, social e cultural dos estudantes (HORTA; GRUNBERG; MONTEIRO, 1999). No ensino de História, essa abordagem permite que o aluno deixe de compreender o passado como algo distante e passe a reconhecê-lo nos espaços, monumentos, memórias e tradições presentes em seu próprio território, favorecendo o desenvolvimento da consciência histórica e do sentimento de pertencimento (BEZERRA, 2016).
No caso do município de Anchieta-ES, o patrimônio histórico-cultural apresenta-se como um importante recurso pedagógico, uma vez que a cidade possui patrimônios históricos materiais e imateriais que expressam diferentes momentos de sua formação histórica cultural. Edificações religiosas seculares e centenárias, patrimônios arquitetônicos, monumentos e espaços culturais — como museus e casas de cultura —, além de narrativas orais, manifestações religiosas e tradições populares, constituem importantes elementos que podem ser utilizados como instrumentos de aprendizagem, favorecendo a valorização da memória coletiva e da identidade local (CHOAY, 2006).
A utilização desses patrimônios no processo educativo contribui para ampliar a compreensão dos estudantes sobre sua própria história. Ao visitar, observar e interpretar os espaços patrimoniais da cidade, os sujeitos passam a estabelecer vínculos afetivos e simbólicos com o lugar onde vivem. Dessa forma, o patrimônio deixa de ser apenas um bem preservado e passa a ser compreendido como fonte de conhecimento, identidade e pertencimento social (LE GOFF, 1990).
Nesse sentido, o ensino de História torna-se mais dinâmico e contextualizado, pois permite que os conteúdos escolares dialoguem com as experiências vividas pelos estudantes. A cidade passa a ser entendida como um espaço educativo, capaz de revelar memórias, trajetórias e processos históricos que contribuíram para a formação da comunidade anchietense. Essa perspectiva rompe com práticas tradicionais baseadas apenas na exposição oral e no livro didático, abrindo espaço para metodologias participativas e investigativas voltadas à formação crítica dos sujeitos (FREIRE, 1996).
O estudo desenvolvido demonstra que a Educação Patrimonial pode favorecer o reconhecimento dos bens culturais locais e estimular a participação da comunidade na preservação de sua memória. Ao envolver professores e moradores no processo investigativo, torna-se possível compreender que o patrimônio histórico-cultural não pertence apenas aos órgãos oficiais de preservação, mas também à população que o vivencia, interpreta e ressignifica cotidianamente (MENESES, 2012).
Outro aspecto relevante refere-se ao papel da escola como mediadora entre o patrimônio e a comunidade. Cabe à instituição escolar promover práticas educativas que possibilitem aos estudantes conhecerem, valorizarem e preservarem os bens culturais presentes em seu município. Para isso, é necessário que o ensino de História esteja articulado a projetos pedagógicos que valorizem a história local e reconheçam os estudantes como sujeitos ativos no processo de construção do conhecimento (VYGOTSKY, 1998).
A proposta de elaboração do roteiro intitulado Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: Roteiro Itinerante como Estratégia para a Educação Patrimonial, História e Cultura, em formato de e-book, incluindo QR Codes com vídeos educativos vinculados aos patrimônios históricos contemplados no percurso, representa uma estratégia inovadora de integração entre educação, cultura e tecnologia. Esse recurso possibilita ampliar o acesso às informações históricas e culturais sobre os bens patrimoniais de Anchieta-ES, tornando o processo de aprendizagem mais interativo, acessível e atrativo para estudantes, professores, moradores e visitantes (MEDEIROS, 2020).


Banner dos vídeos educativos vinculados aos patrimônios históricos contemplados no percurso Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: Roteiro Itinerante como Estratégia para Educação Patrimonial, História e Cultura. Fonte: ilustração gerada por inteligência artificial, sob orientação do autor, 2026.
Dessa forma, o desenvolvimento da pesquisa evidencia que a Educação Patrimonial contribui não apenas para o ensino de História, mas também para a formação cidadã. Ao reconhecer o valor dos patrimônios locais, os sujeitos desenvolvem maior consciência sobre a importância da preservação, da memória coletiva e da identidade cultural. Assim, o patrimônio histórico-cultural de Anchieta-ES transforma-se em instrumento pedagógico, social e cultural, capaz de fortalecer os vínculos entre escola, comunidade e território (MORIN, 2000).
Além disso, a Educação Patrimonial favorece o desenvolvimento da consciência crítica dos estudantes ao possibilitar reflexões sobre a preservação dos bens culturais e sobre a importância da memória social na construção das identidades sociais. Ao compreenderem o patrimônio como parte integrante de sua história e cultura, os sujeitos passam a reconhecer o valor simbólico dos espaços históricos e das manifestações culturais presentes em sua comunidade, fortalecendo o compromisso com a preservação e valorização desses bens culturais (FONSECA, 1997).
Outro aspecto relevante refere-se à possibilidade de utilização dos patrimônios culturais como espaços educativos não formais, ampliando as experiências de aprendizagem para além da sala de aula. Museus, igrejas, monumentos históricos e centros culturais tornam-se ambientes de investigação, observação e construção do conhecimento histórico, permitindo que os estudantes desenvolvam aprendizagens mais dinâmicas, participativas e contextualizadas (SILVEIRA FILHO, 2013).
Nesse contexto, a Educação Patrimonial também contribui para a valorização das experiências culturais locais e para o fortalecimento da identidade coletiva da comunidade anchietense. Ao reconhecerem os patrimônios históricos e culturais como elementos representativos de sua trajetória social, os estudantes passam a desenvolver maior sentimento de pertencimento e consciência sobre a importância da preservação da memória social e cultural do município (LE GOFF, 1990).
05
Metodologia
A presente pesquisa caracteriza-se por uma abordagem qualitativa, utilizando como método a pesquisa-ação, compreendida como estratégia investigativa que articula a produção de conhecimento à intervenção na realidade estudada. Compreendida como uma estratégia investigativa que articula, de forma simultânea, a produção de conhecimento e a intervenção sobre a realidade estudada. Conforme destaca Thiollent (2011), a pesquisa-ação caracteriza-se pela participação ativa dos sujeitos envolvidos no processo, com o objetivo de identificar problemas, planejar ações, implementá-las e avaliar seus resultados de maneira colaborativa. Constitui uma metodologia investigativa que articula a produção do conhecimento científico com a intervenção prática na realidade social pesquisada. Diferentemente de métodos tradicionais, essa abordagem promove a participação ativa dos sujeitos envolvidos no processo investigativo, buscando compreender os problemas existentes e, simultaneamente, propor ações transformadoras no contexto estudado. Segundo Michel Thiollent, a pesquisa-ação pode ser compreendida como “um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo” (THIOLLENT, 2011, p. 20).
Além da análise bibliográfica e documental, a pesquisa fundamentou-se em atividades de campo realizadas no município de Anchieta. O estudo teve como foco o patrimônio histórico-cultural que compõe o sítio histórico da sede do município, investigando sua utilização como instrumento pedagógico estratégico no ensino de História e da cultura, por meio da Educação Patrimonial.
A abordagem qualitativa foi escolhida por possibilitar uma compreensão mais aprofundada das percepções, experiências e significados atribuídos pelos participantes ao patrimônio histórico-cultural do município. Conforme destaca Minayo (2012), a pesquisa qualitativa permite compreender aspectos subjetivos das relações humanas, culturais e sociais presentes na realidade investigada, contribuindo para análises interpretativas relacionadas aos fenômenos sociais e educacionais.
A investigação foi desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico fundamentado em autores que discutem memória coletiva, patrimônio cultural, identidade e Educação Patrimonial, entre os quais se destacam Jacques Le Goff (1990), Paulo Freire (1996), Lev Vygotsky (1998), Edgar Morin (2000), Françoise Choay (2001) e Maria de Lourdes Parreiras Horta (1999).
A pesquisa de campo ocorreu entre os dias 10 e 30 de novembro de 2025, envolvendo a participação de 30 sujeitos maiores de idade, sendo 20 professores da área de Ciências Humanas e 10 moradores do município, entre residentes antigos e recém-chegados. A escolha dos participantes ocorreu de forma intencional, considerando sujeitos que possuíam relação direta com a história, a cultura e o patrimônio local.
Como instrumentos de coleta de dados foram utilizadas rodas de conversa, aplicação de questionários semiestruturados, observação participante e visitas aos principais patrimônios históricos e culturais do município. Durante as visitas, realizou-se registro sistemático das observações por meio de fotografias, anotações e análise dos espaços patrimoniais investigados, permitindo maior aproximação entre os pesquisadores e a realidade estudada (MINAYO, 2012).
As rodas de conversa possibilitaram aos participantes compartilhar experiências, memórias e percepções relacionadas à história e ao patrimônio cultural da cidade, contribuindo para a compreensão da relação entre memória coletiva, identidade cultural e Educação Patrimonial. Os questionários aplicados aos professores buscaram identificar as possibilidades e desafios relacionados ao uso do patrimônio histórico-cultural como recurso pedagógico no ensino de História.
Os dados produzidos foram analisados de forma interpretativa, considerando as narrativas dos participantes e os referenciais teóricos que fundamentam a pesquisa. A análise buscou compreender como o patrimônio histórico-cultural pode contribuir para práticas educativas mais críticas, contextualizadas e voltadas ao fortalecimento da memória e da identidade local (LE GOFF, 1990).
Além disso, a pesquisa resultou na elaboração de um produto educacional em formato de e-book, estruturado como roteiro itinerante voltado à Educação Patrimonial. O material, em formato de e-book, contempla estratégias de acesso ao patrimônio local, incluindo QR Codes com vídeos educativos vinculados aos patrimônios históricos presentes no roteiro, favorecendo a integração entre patrimônio, educação e tecnologia no processo de ensino-aprendizagem (MEDEIROS, 2020).
Levantamento bibliográfico e documental
Fundamentação teórica em Le Goff (1990), Freire (1996), Vygotsky (1998), Morin (2000) e Choay (2001), entre outros.
Pesquisa de campo em Anchieta-ES
Rodas de conversa, questionários semiestruturados e observação participante com 30 sujeitos, entre os dias 10 e 30 de novembro.
Análise interpretativa dos dados
Cruzamento das narrativas coletadas com o referencial teórico da pesquisa-ação (THIOLLENT, 2011).
Defesa da dissertação
Defesa em 29 de abril de 2026, com apresentação do e-book itinerante “Anchieta-ES, Cidade Patrimônio” como produto educacional.
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Análise e Discussão dos Resultados
A análise dos dados produzidos durante a pesquisa evidenciou a relevância da Educação Patrimonial como estratégia pedagógica voltada ao fortalecimento da memória coletiva, da identidade cultural e do sentimento de pertencimento no município de Anchieta-ES. As narrativas dos participantes revelaram que o patrimônio histórico-cultural da cidade é reconhecido não apenas como elemento de preservação histórica, mas também como importante instrumento educativo e formativo (HORTA; GRUNBERG; MONTEIRO, 1999).
Os professores participantes destacaram que a utilização dos patrimônios locais no ensino de História contribui significativamente para tornar as aulas mais contextualizadas, participativas e significativas. Dos 20 professores participantes da pesquisa, 17 afirmaram utilizar patrimônios históricos locais como recurso pedagógico em atividades relacionadas ao ensino de História, especialmente por meio de visitas monitoradas, rodas de conversa e atividades investigativas desenvolvidas fora da sala de aula.
Segundo os relatos dos docentes, essas práticas favorecem maior envolvimento dos estudantes com os conteúdos escolares, permitindo que eles reconheçam a história presente em sua própria realidade social e cultural.
Um dos professores participantes destacou:
“Quando os estudantes visitam os patrimônios históricos da cidade, conseguem compreender de maneira mais significativa a história local, passando também a valorizar a cultura e a identidade do município.”
Professor participante da pesquisaOutro docente relatou:
“As atividades desenvolvidas nos espaços históricos despertam maior interesse por parte dos alunos, tornando as aulas mais dinâmicas, participativas e enriquecedoras no processo de ensino-aprendizagem.”
Professor participante da pesquisaPor sua vez, uma das professoras frisou:
“Reconhece a relevância da temática da Educação Patrimonial, porém afirma trabalhá-la apenas de forma esporádica, evidenciando limitações relacionadas ao acesso a materiais didáticos e ao próprio conhecimento histórico acerca do município.”
Professora participante da pesquisaEsses resultados dialogam com Freire (1996), ao defender que a aprendizagem se fortalece quando os conteúdos escolares se aproximam da realidade vivida pelos sujeitos, promovendo experiências educativas mais significativas e críticas.
Nesse contexto, a Educação Patrimonial possibilita uma aproximação entre teoria e prática, rompendo com metodologias tradicionais centradas apenas na exposição oral e no uso exclusivo do livro didático. Os docentes relataram que o contato direto com os patrimônios históricos amplia o interesse dos estudantes pela disciplina de História, além de estimular reflexões sobre preservação cultural, memória social e identidade local (FREIRE, 1996).
Entre os patrimônios mais mencionados pelos participantes, destacaram-se o Santuário Nacional de São José de Anchieta, a Casa de Cultura Angelina Lopes Assad, o Colégio Maria Mattos, Hotel Anchieta e outros monumentos históricos presentes no município. Esses espaços foram reconhecidos como importantes referências da memória coletiva anchietense, sendo considerados locais de preservação da história, das tradições e das experiências culturais da comunidade (CHOAY, 2006).
Os moradores participantes também destacaram a relevância do patrimônio cultural na construção da identidade local. Entre os dez entrevistados, oito afirmaram que os patrimônios históricos da cidade possuem significativo valor afetivo e simbólico para a comunidade. Muitos relataram lembranças relacionadas às festividades religiosas, às tradições culturais e às experiências vivenciadas nos espaços históricos do município.
De maneira geral, a análise dos depoimentos dos moradores mais antigos evidencia que, embora muitos possuam vivências e memórias significativas ligadas ao cotidiano e às tradições locais, nem todos apresentam uma compreensão mais estruturada acerca do patrimônio histórico e cultural do município. Observa-se que parte dos participantes não possui uma memória consolidada sobre a história e a cultura de Anchieta, especialmente no que se refere ao patrimônio histórico sob a perspectiva da historiografia local.
Uma das moradoras participantes relatou:
“Muitas histórias da cidade fazem parte das lembranças das famílias e precisam ser preservadas para as futuras gerações.”
Moradora participante da pesquisaOutro participante destacou:
“Os patrimônios históricos representam a memória da cidade e ajudam as pessoas a compreenderem sua própria história.”
Morador participante da pesquisaPor sua vez, outro morador afirma:
“Conheço algumas festividades e espaços relevantes do município, porém reconheço que ainda possuo conhecimentos limitados acerca da história e do patrimônio cultural de Anchieta.”
Morador participante da pesquisaAs narrativas evidenciaram que o patrimônio ultrapassa sua dimensão material e assume significado simbólico, cultural e emocional para a população. Conforme destaca Le Goff (1990), a memória constitui elemento essencial na construção das identidades sociais, sendo o patrimônio uma representação simbólica das experiências históricas acumuladas ao longo do tempo.
A pesquisa revelou ainda que o patrimônio histórico-cultural pode contribuir para a valorização das experiências sociais e culturais da comunidade, favorecendo práticas educativas voltadas à cidadania e à preservação da memória coletiva. Entretanto, os resultados também apontaram desafios relacionados à efetivação da Educação Patrimonial no contexto escolar.
Entre os professores participantes, 12 relataram dificuldades relacionadas à ausência de formação específica sobre Educação Patrimonial e à limitação de projetos permanentes voltados à valorização da história local. Alguns docentes também destacaram a pouca inserção da temática patrimonial nos currículos escolares e a escassez de recursos destinados às atividades de campo e visitas pedagógicas.
Esses desafios reforçam a necessidade de fortalecimento das práticas educativas voltadas à valorização do patrimônio cultural e da memória social, além da ampliação de políticas públicas relacionadas à preservação patrimonial e à formação continuada dos professores (MENESES, 2012).
Outro aspecto identificado refere-se à necessidade de ampliação das ações educativas relacionadas à cultura local. Os participantes destacaram que muitos estudantes ainda possuem pouco conhecimento sobre a história e os patrimônios do município, evidenciando a importância de práticas pedagógicas contínuas voltadas à valorização da memória cultural anchietense (FONSECA, 1997).
Nesse sentido, a elaboração do roteiro itinerante em formato de e-book, com inserção de QR Codes nos patrimônios históricos da cidade, apresentou-se como importante estratégia metodológica para ampliar as experiências educativas relacionadas à Educação Patrimonial. O produto educacional desenvolvido busca integrar patrimônio, tecnologia e ensino de História, tornando o processo de aprendizagem mais dinâmico, interativo e acessível (MEDEIROS, 2020).
Assim, os resultados da pesquisa demonstram que a Educação Patrimonial possui significativo potencial pedagógico no ensino de História, contribuindo para a valorização da cultura local, para o fortalecimento da identidade coletiva e para a formação crítica dos sujeitos. Além disso, evidencia-se que o patrimônio histórico-cultural de Anchieta-ES pode atuar como importante instrumento de mediação entre escola, comunidade e memória social, favorecendo práticas educativas mais humanizadas e contextualizadas (MORIN, 2000).
07
Considerações Finais
A presente pesquisa possibilitou compreender a relevância da Educação Patrimonial como instrumento pedagógico voltado à valorização da memória coletiva, da cultura local e da identidade histórica no município de Anchieta-ES. Ao longo do estudo, verificou-se que o patrimônio histórico-cultural da cidade apresenta significativo potencial educativo, contribuindo para práticas pedagógicas mais críticas, contextualizadas e participativas no ensino de História.
Os resultados evidenciaram que a utilização dos patrimônios locais como recursos pedagógicos favorece a aproximação entre os conteúdos escolares e a realidade sociocultural dos estudantes, permitindo que os sujeitos reconheçam sua participação na construção histórica da comunidade. Nesse sentido, a Educação Patrimonial fortalece o sentimento de pertencimento, amplia a valorização da memória coletiva e contribui para o reconhecimento da valorização cultural anchietense.
As narrativas dos participantes demonstraram que os espaços históricos da cidade ultrapassam sua dimensão material, assumindo significados afetivos, culturais e simbólicos para a população. Monumentos, edificações históricas, manifestações culturais e tradições locais constituem importantes referências da memória social do município, tornando-se instrumentos fundamentais para o desenvolvimento de práticas educativas voltadas à preservação cultural e à formação cidadã.
A pesquisa também revelou desafios relacionados à efetivação da Educação Patrimonial no contexto escolar, especialmente no que se refere à necessidade de formação continuada para os professores, ao fortalecimento das políticas públicas de preservação patrimonial e à ampliação de projetos educativos permanentes voltados à valorização da história local.
Nesse contexto, o roteiro itinerante desenvolvido como produto educacional apresenta-se como importante estratégia metodológica para integrar patrimônio, educação e tecnologia. A utilização de QR Codes nos patrimônios históricos da cidade possibilita ampliar o acesso às informações culturais e históricas, tornando o processo de aprendizagem mais interativo, dinâmico e significativo.
Dessa forma, conclui-se que a Educação Patrimonial contribui não apenas para o ensino de História, mas também para a formação crítica e cidadã dos sujeitos, fortalecendo os vínculos entre escola, comunidade e território. O patrimônio histórico-cultural de Anchieta-ES revela-se, portanto, como importante instrumento de preservação da memória coletiva e valorização da identidade cultural, reafirmando a necessidade de práticas educativas comprometidas com a história, a cultura e a construção social do conhecimento.
O roteiro itinerante como produto educacional
O produto educacional da dissertação é um e-book com roteiro itinerante pelos patrimônios de Anchieta-ES, incluindo QR Codes que dão acesso a vídeos educativos vinculados a cada ponto histórico visitado — uma forma de aproximar tecnologia, turismo e ensino de História.
08
Referências
- BEZERRA, Jorge Luís de Medeiros. Educação Patrimonial: novas perspectivas para o ensino de História. Dissertação (Mestrado Profissional em Ensino de História) — Universidade Federal do Tocantins, Araguaína, 2016.
- BITTENCOURT, Circe Maria Fernandes. Ensino de História: fundamentos e métodos. São Paulo: Cortez, 2005.
- CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Estação Liberdade, 2006.
- FONSECA, Maria Cecília Londres. O patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil. Rio de Janeiro: UFRJ/IPHAN, 1997.
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Sobre os autores
¹ Ivan Petri Florentino é mestre em Ciência, Tecnologia e Educação pelo Centro Universitário Vale do Cricaré (UNIVC). Defendeu, em 29 de abril de 2026, a dissertação intitulada Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: o Ensino da História e da Cultura, tendo como produto educacional Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: Roteiro Itinerante como Estratégia para a Educação Patrimonial, História e Cultura. Atua nas áreas de patrimônio histórico e cultural, educação patrimonial, museologia e gestão de acervos. E-mail: ipetriflorentino@gmail.com.
² Márcia Moreira de Araújo é pós-doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF/RJ). Pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Estudos em Educação Ambiental (NIPEEA/UFES). Professora e orientadora de pesquisas em nível de mestrado no Programa de Mestrado Profissional em Ciência, Tecnologia e Educação da Universidade Vale do Cricaré (UNIVC), São Mateus-ES. E-mail: marcia.araujo@ivc.br.
Fonte: Dissertação de mestrado “Anchieta-ES, Cidade Patrimônio: o Ensino da História e da Cultura”, de Ivan Petri Florentino, orientada pela Prof.ª Dra. Márcia Moreira de Araújo — Centro Universitário Vale do Cricaré (UNIVC), 2026.
Créditos das imagens: acervo da pesquisa e ilustração gerada por inteligência artificial sob orientação do autor, 2026.


