Instituto Reritiba

Raízes que resistem: o viveiro de propágulos em Guarapari (ES) que nasceu do compromisso de uma vida com o mar

Às margens dos manguezais de Guarapari, onde a maré dita o ritmo e o cheiro de lama fértil se mistura à brisa do mar, uma rotina silenciosa e persistente acontece duas vezes ao dia. Às 8h30 da manhã e às 16h30 da tarde, mãos experientes regam fileiras de propágulos — as sementes vivas do manguezal — num gesto que é, ao mesmo tempo, técnica e devoção.

Por Dhyovaine Nascimento | Instituto Reritiba 

Às margens dos manguezais de Guarapari (ES), onde a maré dita o ritmo e o cheiro de lama fértil se mistura à brisa do mar, uma rotina silenciosa e persistente acontece duas vezes ao dia. Às 8h30 da manhã e às 16h30, mãos experientes regam fileiras de propágulos, as sementes vivas do manguezal, num gesto que é, ao mesmo tempo, técnica e devoção.

Sebastião Carlos Machado, presidente e fundador da Associação Salvamar, tem 24 anos de história construída na defesa do mar e dos ecossistemas costeiros de Guarapari. Mesmo assim, confessa com a surpresa genuína de quem nunca para de aprender: “Nunca imaginei que um dia fosse cultivar propágulos, mesmo tendo atuado tantos anos com a proteção dos manguezais.”

Um viveiro nascido da urgência

O viveiro de propágulos da Salvamar surgiu como resposta direta ao que se vê, e que dói, ao percorrer os manguezais de Guarapari. Degradação, lixo, esgoto a céu aberto e o avanço silencioso da ocupação urbana sobre áreas que deveriam ser intocáveis. Diversos pontos da cidade registram perda expressiva de cobertura de mangue nos últimos anos, e o que antes era vegetação densa, hoje cede espaço a aterros, descarte irregular e abandono.

As primeiras mudas que chegaram ao viveiro vieram do Viveiro Municipal de Anchieta, parceiro nesse primeiro movimento de restauração. Da chegada das mudas em diante, o cuidado passou a ser inteiramente da Salvamar. O trabalho é diário, sem intervalos: observar o desenvolvimento de cada propágulo, repor os poucos que não sobrevivem, retirar o mato que compete com as mudas e garantir a rega nos dois momentos do dia em que a temperatura é menor.

Hoje, a água usada para irrigação vem de um poço. Em breve, testes com água salgada serão realizados, uma etapa fundamental para que os propágulos desenvolvam a resistência necessária para prosperar no ambiente original do manguezal, com toda a salinidade e dinâmica o ambiente oferece.

O tempo como aliado e como lição

Cultivar um propágulo é um exercício de paciência que poucos ecossistemas exigem de forma tão explícita. Uma muda de mangue leva anos para se firmar, criar raízes aéreas, estabilizar o solo e começar a cumprir o seu papel ecológico: filtrar a água, proteger a costa e abrigar vida.

É exatamente nessa espera que mora a lição mais poderosa que o viveiro pode oferecer. Sebastião coloca com clareza: “O que se espera é que as famílias e a comunidade observem e tenham curiosidade para sentir de maneira tão clara a necessidade do zelo pelo manguezal. Uma muda demora tanto tempo para crescer.”

Ver o ciclo de perto, a semente que vira muda, a muda que precisa de cuidado diário, o cuidado que se estende por anos antes de qualquer resultado visível, transforma a percepção de quem participa. Não é abstrato. É concreto, palpável, e irreversivelmente educativo.

Crianças que nunca tinham visto uma muda

Talvez o dado mais revelador que Sebastião traz seja este: entre as crianças e adolescentes que frequentam as atividades da Salvamar, há quem nunca tivesse visto uma muda de mangue. Não por descaso, mas por distância. A urbanização progressiva e o afastamento das comunidades dos ecossistemas naturais criaram gerações que crescem sem nunca ter tocado a terra do manguezal, sem saber que aquela raiz retorcida dentro d’água é, na verdade, um dos sistemas mais produtivos e biodiversos do planeta.

O viveiro quebra esse afastamento. A curiosidade surge naturalmente — “as crianças perguntam”, conta Sebastião, e perguntar é o primeiro passo para proteger. Quando uma criança entende que aquela muda frágil, que precisa ser regada duas vezes por dia, vai se tornar parte do manguezal que abriga peixes, caranguejos e protege a cidade das marés, algo muda nela. Uma consciência se planta junto com o propágulo.

24 anos de proteção: do óleo ao oxigênio

A Salvamar não nasceu dos propágulos. Nasceu do óleo.

Há 24 anos, a associação criou um programa pioneiro de recolhimento de óleo lubrificante usado pelos pescadores da região. O modelo é simples e eficiente: o pescador devolve o óleo queimado e recebe R$ 19,00 por litro, enquanto o óleo lubrificante novo custa cerca de R$ 40,00 no mercado. O óleo recolhido segue para rerrefino, evitando que seja descartado no solo ou no mar, onde contaminaria os mesmos manguezais que a associação protege.

É uma cadeia de responsabilidade compartilhada que funciona há mais de duas décadas e que, segundo Sebastião, ainda precisa crescer: “Precisamos de mais apoio, de mais empresas envolvidas nesse processo.”

Do óleo aos propágulos, a trajetória da Salvamar é uma linha reta: sempre o manguezal no centro, sempre a comunidade como protagonista.

Uma parceria que aponta para o futuro

A entrada da Salvamar no projeto Vozes dos Manguezais, coordenado pelo Dr. Marlon Carlos França, do IFES Campus Piúma, com financiamento da FAPES, FUNDÁGUA e FUNCITEC, representa um salto de escala para o trabalho que já existia. O viveiro de propágulos passa a integrar uma rede científica e comunitária que envolve universidades brasileiras e internacionais, prefeituras, reservas de desenvolvimento sustentável e organizações socioambientais.

Para Sebastião, o significado é claro: “Essa parceria nos coloca num patamar para a educação ambiental e é um novo passo para o futuro de Guarapari.”

Não é retórica. É a convicção de quem passou 24 anos olhando para o manguezal antes que qualquer câmera ou projeto chegasse e que agora vê, com satisfação discreta, que o mundo começa a olhar também.

Vozes dos Manguezais é um projeto científico e comunitário de diagnóstico, restauração e educação ambiental nos manguezais de Guarapari (ES), realizado pelo IFES Campus Piúma em parceria com instituições nacionais e internacionais. Comunicação e publicidade: Instituto Reritiba | Acompanhe o projeto