A cidade de Anchieta, localizada no litoral sul do estado do Espírito Santo, possui aproximadamente 447 anos de trajetória histórica e cultural. Seu território revela importantes registros de antigas ocupações humanas, configurando-se como um espaço privilegiado para a compreensão dos primeiros assentamentos que compõem a formação histórica capixaba. Nesse contexto, destacam-se evidências da presença de populações litorâneas, como grupos sambaquieiros e comunidades caiçaras, bem como de povos oriundos do interior, que se estabeleceram em localidades atualmente reconhecidas como comunidades tradicionais, a exemplo da Chapada do “A”, anteriormente denominada aldeia de Araputanga (termo de origem tupi que significa “arara vermelha”).
As intervenções relacionadas às obras de implantação do Gasoduto Ramal GASCAV–UTG-SUL, realizadas em 2009, possibilitaram a execução de atividades de prospecção e resgate arqueológico na região, sob supervisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Equipes compostas por arqueólogos e estagiários realizaram escavações em pontos estratégicos da localidade e em áreas adjacentes, resultando na identificação de um conjunto expressivo de vestígios materiais associados a populações ancestrais que habitaram o território em períodos pré-coloniais.
Conforme descrito no Relatório do Programa de Resgate Arqueológico na Área do Gasoduto Ramal GASCAV–UTG-SUL, o material arqueológico coletado no Sítio da Chapada do “A” apresentou significativa diversidade, sobretudo em superfície, permitindo caracterizar o sítio como pertencente a populações coletoras e caçadoras. Entre os principais vestígios identificados, destaca-se uma indústria lítica confeccionada em rochas lateríticas, quartzo, gnaisse, granito e arenito. Além disso, a indústria óssea revelou-se relevante, com a presença de artefatos produzidos a partir de ossos e dentes de mamíferos, bem como ossos de peixes, evidenciando técnicas de lascamento e posterior polimento.
As rochas lateríticas, abundantes nos solos terciários da Formação Barreiras e em recifes costeiros, foram utilizadas tanto para a extração de pigmento vermelho (óxido de ferro) quanto para a confecção de instrumentos de percussão. Também foram identificados fragmentos cerâmicos vinculados à tradição neobrasileira, apresentando características regionais específicas em seu processo de manufatura, elaboradas a partir de blocos de argila modelados por sobreposição de roletes.
O patrimônio arqueológico refere-se aos vestígios materiais das sociedades humanas do passado, identificados em sítios arqueológicos que evidenciam processos de ocupação territorial, modos de vida e dinâmicas culturais de povos ancestrais. No município de Anchieta–ES, há diversos sítios reconhecidos e cadastrados pelo IPHAN, entre os quais se destaca o Sítio Arqueológico de Reritiba, localizado no pátio interno da antiga residência dos padres jesuítas, onde atualmente funciona o Museu Nacional de São José de Anchieta.
As escavações arqueológicas realizadas entre 1994 e 1997 revelaram estruturas arquitetônicas datadas do século XVI, além de objetos e fragmentos associados tanto a ocupações pré-históricas anteriores à chegada dos portugueses quanto a contextos históricos compreendidos entre os séculos XVI e XXI. Entre os achados, destacam-se materiais líticos, cerâmicas indígenas, porcelanas portuguesas e francesas, além de registros de enterramentos humanos, evidenciando a complexidade estratigráfica e cultural do sítio.
Outro conjunto de relevância corresponde aos sítios arqueológicos Rio Una I e Rio Una II, localizados entre os bairros Benevente e Nova Jerusalém. Essas áreas foram investigadas por meio de um programa de resgate arqueológico desenvolvido pela Fundação Aroeira entre 2024 e 2025, contratado pela Prefeitura Municipal de Anchieta, por intermédio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Os resultados reafirmam a existência de assentamentos datados entre 1625 e 1675, correspondentes ao século XVII, tendo sido empregada a técnica da Luminescência como método de determinação cronológica. Entre os materiais identificados encontram-se vestígios líticos, cerâmicos, fragmentos de vidro e materiais malacológicos.
Outro sítio arqueológico de destaque é o Sambaqui Porto do Mandoca, cadastrado por meio do Processo SEI nº 01409.000459/2023-88, no qual se identificam acúmulos conchíferos e vestígios históricos em sua área de abrangência. As evidências indicam ocupações pré-coloniais, com intervenções estendendo-se até a segunda década do século XX. Em vistoria técnica realizada em 27 de setembro de 2025, o IPHAN reconheceu oficialmente a denominação do sítio como “Sambaqui do Porto do Mandoca”, reforçando sua relevância arqueológica e patrimonial.
Registros históricos apontam ainda que, nas margens do rio Benevente, existiram antigas caieiras destinadas à produção artesanal de cal a partir de conchas, insumo fundamental para as construções coloniais desde o período da Missão de Nossa Senhora da Assunção da Aldeia de Reritiba. Embora o sítio não tenha sido alvo de escavações sistemáticas, encontra-se registrado tecnicamente pelo IPHAN como bem arqueológico de interesse nacional.
No cartão postal produzido pelo artista Álvaro Conde, em 1939, observa-se a paisagem cultural marcada pela presença humana, residências de traços vernaculares e estruturas produtivas tradicionais, evidenciando a relação entre trabalho, território e práticas construtivas locais.
REFERÊNCIAS
ACERVO DOCUMENTAL da Casa da Cultura Angelina Lopes Assad. Anchieta–ES: Gerência Municipal de Cultura e Patrimônio Histórico, 2025. Portaria nº 700/2025. Gerente municipal: Robson Mattos Santos.
CONDE, Álvaro. Ilustração do Sambaqui do Porto do Mandoca: antigas caieiras primitivas do Porto do Mandoca. Cartão postal. Anchieta, 1939.
FUNDAÇÃO AROEIRA. Relatório técnico de resgate arqueológico dos sítios Rio Una I e Rio Una II: Anchieta–ES (2024–2025). Anchieta: Prefeitura Municipal de Anchieta, 2025.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Laudo de vistoria técnica. Processo SEI nº 01409.000459/2023-88. Anchieta, 27 set. 2025.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Relatório do Programa de Resgate Arqueológico na Área do Gasoduto Ramal GASCAV–UTG-SUL: Anchieta–ES. Brasília: IPHAN, 2009.


