GUARAPARI (ES). Os manguezais, ecossistemas de transição entre ambientes terrestres e marinhos, desempenham um papel crucial na manutenção da biodiversidade, na proteção costeira e no sustento de comunidades tradicionais. Em Guarapari, Espírito Santo, esses ambientes naturais enfrentam desafios crescentes, marcados por um distanciamento entre a população e o ecossistema, e por pressões urbanas e ambientais. Uma pesquisa de percepção ambiental, realizada com o apoio de estudantes do IFES – Campus Piúma, em conjunto com uma entrevista aprofundada com o Prof. Dr. Márcio De Paula Filgueiras, antropólogo com vasta experiência em grupos tradicionais e meio ambiente, revela nuances complexas dessa relação, apontando para a necessidade urgente de reconexão socioambiental e estratégias de conservação mais eficazes.
A topofilia e o cotidiano de quem “vive da lama”
O Prof. Dr. Márcio De Paula Filgueiras, em sua entrevista, aborda o conceito de topofilia, o elo afetivo entre pessoa e lugar, e como ele se manifesta nas comunidades que habitam e dependem dos manguezais. Segundo o professor, essa topofilia se expressa através de apropriações materiais e simbólicas do manguezal. A frequência à região para atividades econômicas, lazer e até mesmo lúdicas, como cobrir-se de lama durante o Carnaval, são exemplos da apropriação material. A apropriação simbólica, por sua vez, é visível nas toponímias, onde a categoria genérica “mangue” se desdobra em nomes específicos para regiões, muitas vezes ligados a acontecimentos ou personagens locais.
Essa perspectiva qualitativa é fundamental para entender a profundidade da relação humana com o manguezal, que vai além do mero uso econômico, englobando aspectos culturais e identitários. No entanto, a pesquisa de campo revela um cenário preocupante de distanciamento dessa topofilia na população geral de Guarapari.

Distanciamento e invisibilidade: os dados da pesquisa de campo
A pesquisa de percepção ambiental, que envolveu 19 participantes de Guarapari, embora não representativa estatisticamente, oferece um panorama interpretativo significativo sobre a relação dos moradores com os manguezais. Os dados evidenciam um distanciamento estrutural e um enfraquecimento das relações simbólicas, afetivas e socioculturais com esse ambiente.
Um dos achados mais marcantes é que apenas 5,3% dos respondentes afirmaram frequentar regularmente o manguezal para pesca, trabalho, lazer ou pesquisa. Além disso, somente 5,3% relataram experiências diretas com o manguezal durante a infância, indicando uma ruptura intergeracional no estabelecimento de vínculos com o ecossistema.
O distanciamento não é apenas físico. A pesquisa aponta que 36,8% dos entrevistados afirmam sempre ter observado o manguezal, mas nunca tiveram contato direto com ele, percebendo-o apenas à distância, como um elemento da paisagem, mas não como um espaço vivido. Ainda mais preocupante, 26,3% geralmente não observam o manguezal, reforçando sua invisibilidade ambiental e simbólica.
| Relação com o manguezal | Percentual de respondentes | Implicações |
Frequenta regularmente | 5,3% | Enfraquecimento de práticas extrativistas e relações simbólicas |
| Experiência na infância | 5,3% | Ruptura intergeracional no vínculo com o ecossistema |
Observa à distância, sem contato direto | 36,8% | Manguezal como paisagem, não como espaço vivido |
Não observa o manguezal | 26,3% | Invisibilidade ambiental e simbólica |
Já esteve algumas vezes | 26,3% | Contato esporádico, não estruturado |
Esse distanciamento favorece a vulnerabilidade dos manguezais à degradação, especulação e descaracterização, pois “aquilo que não é percebido, vivido ou valorizado tende a ser menos protegido”.
Conhecimento fragmentado e a geografia da percepção
O conhecimento dos manguezais de Guarapari pela população é fragmentado. A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Concha D’Ostra é a mais reconhecida (31,6%), seguida pelo rio Una (21,1%) e Perocão (15,8%), com 31,6% mencionando “outras” áreas [2]. O maior reconhecimento de Concha D’Ostra é atribuído à sua extensão, localização estratégica, equipamentos turísticos e à presença de uma unidade de conservação formal, que a torna um “cartão de visita” ambiental do município.
Em contraste, os manguezais de Una e Perocão são menores, mais suprimidos pela expansão urbana e frequentemente percebidos como áreas residuais ou vazios urbanos, e não como ecossistemas naturais. O conhecimento nessas áreas é funcional, ligado à atividade pesqueira, e não simbólico ou paisagístico. Essa invisibilidade ambiental reflete uma invisibilidade social, onde manguezais periféricos recebem menos atenção da gestão pública e da população em geral.
Alterações na paisagem e a percepção da degradação
A percepção das alterações na paisagem dos manguezais reforça o distanciamento. A maioria dos participantes (63,2%) afirmou não ter observado o manguezal o suficiente para opinar sobre mudanças, indicando uma ausência de relação direta e cotidiana com o ambiente. Entre os 36,8% que perceberam alterações, todas foram negativas, como poluição e redução das áreas de manguezal, sem identificação de manutenção ou ampliação. Isso sugere que, para quem acompanha minimamente, o processo dominante é de perda e degradação.
Em relação ao tempo das mudanças, 75% dos participantes perceberam alterações nos últimos cinco anos, e 25% nos últimos dez anos, com nenhum respondente apontando mudanças anteriores a uma década. Essa concentração em períodos recentes é explicada pela predominância de jovens na pesquisa, cujo tempo de observação do território é mais curto. Além disso, sugere que o ritmo de mudança ambiental tem se acelerado, tornando as transformações mais evidentes, mesmo para quem não acompanha o manguezal sistematicamente.
Fatores de degradação e a hierarquia dos saberes
Os moradores identificam a poluição (lixo e esgoto) como a principal ameaça aos manguezais, seguida por construções e ocupações irregulares. A falta de conscientização e a negligência estatal também são apontadas como fatores cruciais.
Essa percepção dos moradores dialoga com a discussão do Prof. Dr. Márcio De Paula Filgueiras sobre a hierarquia entre o “saber de experiência feito” (da comunidade) e o “saber acadêmico”. Embora a importância do saber tradicional seja reconhecida, na prática, ele frequentemente precisa ser validado por especialistas da ciência para ser incorporado em políticas públicas. A validade do que o pescador diz é afetada pelo seu status mais amplo na sociedade.
O professor também enfatiza que a gestão ambiental pública falha ao ignorar a dimensão afetiva e cultural desses povos, gerando ressentimento entre aqueles que poderiam ser os maiores parceiros da conservação. Os “marcadores culturais” que a biologia não consegue medir, mas que são vitais para entender a saúde de um manguezal, incluem a forma como as pessoas se apropriam material e simbolicamente desses ambientes.
O Manguezal como refúgio e escudo para a preservação
Historicamente, o manguezal foi visto como lugar de “sujeira” ou “atraso”, uma percepção que afetou a autoestima das comunidades tradicionais. O Prof. Dr. Filgueiras explica que essa visão esteve sempre articulada com a percepção sobre quem os habita, com termos como “caiçara” e “maratimba” tendo origens em estudos evolucionistas e racistas que descreviam essas populações como “pobres incapazes”. A pesquisa antropológica, ao valorizar o afeto, ajuda a “limpar” esse olhar preconceituoso.
O vínculo afetivo, segundo o professor, serve como um “escudo para a preservação”. Em um contexto de pressão imobiliária ou poluição, o pertencimento cultural se transforma em uma ferramenta política de resistência. Quando os pescadores demonstram que sua luta não é apenas econômica, mas por reconhecimento de um modo de vida, fica claro que não podem ser simplesmente removidos e compensados por projetos de impacto, mas devem ter sua territorialidade específica respeitada.
Importância da conservação e reflorestamento
Apesar do distanciamento e da invisibilidade, há um consenso marcante entre os respondentes da pesquisa de que é importante conservar os manguezais de Guarapari (100%). As justificativas incluem o papel do manguezal como berçário de espécies marinhas, sua contribuição para o ecossistema, a proteção contra a erosão e o sustento de atividades econômicas como a pesca.
Além disso, a importância de projetos de reflorestamento de áreas degradadas é amplamente reconhecida, com 94,1% dos participantes considerando-os “muito importantes”. Isso indica uma alta sensibilidade socioambiental e um entendimento de que ações de restauração ecológica são essenciais para a manutenção dos serviços ambientais prestados pelos manguezais.
Rumo à reconexão: O imperativo socioambiental para os manguezais de Guarapari
A análise conjunta da entrevista com o Prof. Dr. Márcio De Paula Filgueiras e da pesquisa de percepção ambiental em Guarapari revela um cenário complexo e multifacetado. Os manguezais, embora reconhecidos em sua importância, sofrem com o distanciamento e a invisibilidade por parte de grande parte da população, especialmente em áreas urbanizadas. As pressões de poluição e ocupação irregular são evidentes, e a percepção da degradação é predominante.
No entanto, a pesquisa também aponta para um forte consenso sobre a importância da conservação e do reflorestamento, indicando uma base social favorável a iniciativas de recuperação ambiental. A valorização do “saber de experiência feito” das comunidades tradicionais, a compreensão da topofilia e o reconhecimento do manguezal como um “escudo para a preservação” são elementos cruciais para a formulação de políticas públicas e ações de educação ambiental mais eficazes.
É imperativo que as estratégias de conservação transcendam a abordagem puramente técnica, incorporando a dimensão afetiva, cultural e social que liga as comunidades aos manguezais. A reconexão da população com esses ecossistemas, através de vivências territoriais, educação ambiental e o diálogo respeitoso entre diferentes saberes, é fundamental para garantir a proteção e a sustentabilidade dos manguezais de Guarapari como um território vivo e integrante da identidade local.
Perfil do especialista
Curriculo Lattes
Márcio De Paula Filgueiras é Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo (2005). Mestre em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (2008).Doutor em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense (2012). Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em grupos tradicionais, sensibilidades jurídicas e meio ambiente em perspectiva comparada. Atualmente é Professor do Instituto Federal do Espírito Santo, na área de Ciências Sociais e Humanas.
Para saber mais sobre as ações de restauração e os estudos científicos em Guarapari, acompanhe a categoria especial no site: https://reritiba.com/vozesdosmanguezais


