Um diagnóstico profundo, financiado por uma força-tarefa de instituições estaduais, busca entender a dinâmica dos manguezais de Guarapari para criar planos de manejo assertivos e mobilizar a comunidade pela sua preservação.
Guarapari, ES – Nos dias 4 e 5 de julho, a paisagem dos manguezais do Rio Perocão e Úna de Guarapari foi o cenário para o início de uma ambiciosa expedição científica. Ali, onde as raízes da vida marinha enfrentam crescentes ameaças, o projeto “Vozes dos Manguezais de Guarapari (ES): diagnóstico e ações para a proteção e conscientização” deu seus primeiros passos práticos. Liderada por Marlon Carlos França — Pós-Doutor em Oceanografia pela University of Massachusetts – Amherst e coordenador do Laboratório de Oceanografia e Clima do IFES — a iniciativa busca criar o mais completo retrato já feito sobre a saúde deste ecossistema vital.
Segundo o coordenador, o projeto possui uma missão multifacetada. O objetivo principal é construir um diagnóstico ambiental detalhado que sirva de base para um plano concreto de restauração, monitoramento e conscientização. Além do trabalho ecológico, França ressalta um pilar humano fundamental: fomentar a formação de pessoas na comunidade que se tornem engajadas no conhecimento e na proteção dos ecossistemas costeiros. A ideia é que todos possam compreender como as mudanças ambientais impactam diretamente a cidade e a vida dos cidadãos.
A força motriz por trás dessa intensa coleta de dados, explica o pesquisador, é a necessidade de entender o funcionamento e a dinâmica dos manguezais de Guarapari em um nível profundo. Ele acredita que apenas com esse conhecimento aprofundado será possível desenvolver planos de manejo futuros que sejam verdadeiramente precisos e assertivos.

Desvendando a história escrita no sedimento
O caminho para essa compreensão está guardado no próprio solo do mangue. Marlon França descreve o sedimento como um arquivo histórico natural, uma vez que as camadas de lama registram informações cruciais sobre o passado químico, físico, geológico e biológico da área. A análise desse material, portanto, é o que permite a aquisição de dados precisos sobre o ecossistema.
Para garantir a integridade dessas informações, a equipe utiliza equipamentos específicos para coletar “testemunhos” (cilindros de sedimento), removendo-os sem destruir suas estruturas. Manter essas camadas intactas, aponta França, é vital para compreender a dinâmica histórica do manguezal.
Uma vez em laboratório, as análises prometem revelar um universo de informações. O coordenador detalha que a análise biológica permitirá identificar grãos de pólen, que contam a história da vegetação que existiu ao redor do mangue, além de mapear a presença de bactérias e fungos, microrganismos essenciais nos processos de decomposição. Já as análises químicas, segundo ele, serão capazes de identificar a origem dos diversos elementos encontrados no ecossistema. O escopo da investigação abrangerá parâmetros da vegetação (fitossociológicos), dados sobre o aporte de pólen, matéria orgânica e elementos químicos e sedimentares.
Devido à forte pressão do desenvolvimento urbano no entorno, a equipe espera encontrar um retrato claro do impacto humano. França afirma que o estudo buscará compreender a fonte da matéria orgânica depositada e prevê a possibilidade de encontrar hidrocarbonetos e uma gama de metais como ferro, manganês, arsênio, cádmio, cromo, chumbo e zinco.
Essa complexa análise será conduzida em uma rede de colaboração. O material será processado no Laboratório de Oceanografia e Clima do IFES-Campus Piúma, com o apoio de laboratórios parceiros na UFES, UFBA, UFPA e USP. O pesquisador estima que os primeiros resultados deverão estar disponíveis em meados do primeiro semestre de 2026.


Da ciência à consciência coletiva
Um projeto desta magnitude só é possível com um sólido apoio institucional. A iniciativa é financiada pelo Edital FAPES/SEAMA Nº 13/2024, que, conforme explica França, foi criado para selecionar propostas que contribuam para a manutenção, recuperação e ampliação da cobertura de manguezais no Espírito Santo. Ele esclarece que os recursos financeiros têm origem no Fundo Estadual de Recursos Hídricos (FUNDAGUA), vinculado à SEAMA, e são operados pela FAPES em parceria com a Secretaria de Ciência e Tecnologia (SECTIi) para fomentar a pesquisa em instituições capixabas.
No entanto, o pilar que dá alma ao projeto é a comunidade. Marlon França enfatiza que o envolvimento dos moradores locais é de grande importância para incentivar um processo de conscientização e para formar cidadãos engajados na proteção ambiental.
Para garantir que o conhecimento gerado se transforme em ação, a estratégia de divulgação é ampla. O coordenador informa que os resultados serão utilizados em publicações científicas e trabalhos de conclusão de curso, mas também serão traduzidos em relatórios de fácil acesso, para que a comunidade possa compreender a importância dos manguezais e ser incentivada a participar de sua proteção.
Ao final, o que se espera é uma mudança cultural. O principal impacto visado, conclui França, é gerar na população local uma consciência sobre a situação atual dos manguezais de Guarapari, mostrando que a condição desses ambientes demanda ações imediatas de proteção e conservação. Afinal, a saúde deles é fundamental para a manutenção do modo de vida das comunidades e para a rica biodiversidade marinha da costa.


