Instituto Reritiba

Da Missão Jesuíta da aldeia de Reritiba ao Santuário Nacional de São José de Anchieta

O Santuário Nacional de São José de Anchieta funciona no espaço arquitetônico e envolvente onde no século XVI foi criada a missão jesuíta de Reritiba. O conjunto possui Tombamento Federal, classificado como monumento histórico desde 1943. Na margem norte do rio Benevente, o monumento nacional afirma-se pelo caráter original da sua dimensão e características estéticas. Localizado de frente para o mar acima da foz do rio e do antigo Porto de Cima. Outrora sem construções ao redor, sediou a missão instalada em aldeia de Tupiniquins e foi estratégico ponto de defesa e proteção das principais povoações dos colonizadores: Vila Velha e Vitória, cujos habitantes necessitavam, para a sua sobrevivência e desenvolvimento de segurança e estabilidade face aos ataques de tribos hostis vindas de sul, ao mesmo tempo, seus habitantes constituíam-se como importante força laboral e produtiva capaz de atender ao crescimento econômico da Capitania do ES. Nacionalizado após a expulsão dos jesuítas acolheu vários órgãos civis, militares e religiosos desde finais do século XVIII até 1927 quando os espaços foram moldados a diferentes necessidades.

[Fig. 1] Sede da antiga missão de Reritiba em Anchieta/ES, atual Santuário Nacional de São José de Anchieta.

Não se propõe aqui uma aula sobre os jesuítas ou a Companhia de Jesus na antiga missão de Nossa Senhora da Assunção de Reritiba, mas uma apresentação breve sobre o contexto local que apresente as transformações da ação humana em diferentes períodos a partir do espaço no qual fundaram os jesuítas a mais importante missão no sul da capitania do Espírito Santo, precisamente na aldeia de Tupiniquins de Reritiba que, em português, é o mesmo que dizer “local de muitas ostras”. Esta presença gerou ações em todos os campos da atividade humana, como relações políticas e econômicas, artísticas e técnicas, passando pela literatura, a moral e a religião. Assim, para o historiador este é um local de memórias com as quais pode produzir conhecimentos.

No Brasil, durante duzentos e dez anos (1549-1759), a principal Ordem religiosa missionária foi a Companhia de Jesus. Durante aquele período criaram colégios de ensino fundamental, médio e seminários, pediram licença para abrir universidade, mas a autorização foi-lhes negada pelos monarcas. Das regiões amazônicas ao sul do Brasil ergueram igrejas, criaram aldeias, mantiveram fazendas e fizeram o maior número de catecúmenos (LEITE, 1965, p. 2). Sua ação diversificada tornou-os agentes da exploração geográfica e elaboração de mapas com os padres matemáticos, mas desde a sua chegada empreenderam por iniciativa própria ou participaram de expedições ao interior que visavam a descoberta e o contato com novas tribos. Tal aconteceu a partir desta missão, nomeadamente por aquele que foi o mais conhecido língua e sertanista jesuíta brasileiro, natural de Vila Velha/ES, o padre Diogo Fernandes (1543-1607) que empreendeu, na companhia de moradores de Reritiba, pelo menos, de sete a nove viagens ao interior, uma das quais terá atingido o atual estado de Goiás, com o objetivo de fazer descimentos para Reritiba. O trabalho indígena nas aldeias, em regime de corveias, permitiu a manutenção de redes de produção, recolha e venda de produtos da terra que contribuíam na colonização do território. Sua ação extravasou os círculos religiosos, porquanto trouxeram os primeiros pintores, escultores, arquitetos, escritores, músicos e ensinaram aos indígenas novas artes e ofícios. Por outro lado, as escolas e demais missões que estabeleceram foram o núcleo inicial de muitas vilas e cidades brasileiras que se mantém habitadas até ao presente.

No Espírito Santo estabeleceram em Vitória no ano de 1551 a base das suas missões na capitania, na casa que deu origem ao Colégio de Santiago, hoje palácio Anchieta e sede do governo estadual. A missão de Nossa Senhora da Assunção da aldeia de Reritiba foi oficialmente fundada em 1579 (VIOTTI, 1980. p.191).

A iniciativa fundacional coube ao padre José de Anchieta que, como Provincial da Ordem dos Jesuítas no Brasil, obteve permissão do capitão-donatário e iniciou negociações com o cacique da aldeia, tendo no dia 15 de agosto de 1579 celebrou a primeira missa durante o ato solene de abertura da nova missão. Fixaram-se e edificaram este conjunto, do qual a igreja, a torre sineira e a fachada principal são os únicos corpos bem preservados desta construção feita pelos jesuítas com a ajuda da mão de obra indígena.

Com o desenvolvimento da missão e a vinda de novos habitantes, passaram a ocupar as áreas planas da bacia hidrográfica do rio Benevente e lagoas de água doce até Mãe-Bá, propícias à plantação de hortas, roças de mandioca, milho e feijão e ao cultivo extensivo de pés de algodoeiro, do qual extraiam as fibras que artesãos e artesãs da aldeia aprenderam a fiar e tecer criando panos de algodão. Estas eram práticas introduzidas pelos jesuítas que das regiões do nordeste brasileiro haviam trazido sementes de boa qualidade da planta. Mas não se dedicavam os indígenas de Reritiba apenas à agricultura, paralelamente, outros trabalhavam na pesca, na construção de embarcações e criavam o próprio gado e aves, sendo os produtos utilizados no consumo interno enquanto os excedentes eram vendidos, a sustentabilidade para a a. Suas áreas de influência se estenderam desde Guarapari a Marataízes no litoral e, pelo interior, ao vale do rio Caxixe no município de Castelo (CUNHA, 2011).

[Fig. 2] Arco de descarga construído acima da arquitrave da janela na Capela do Santíssimo.

Observarmos a arquitetura e os elementos decorativo é podermos viajar no tempo e podermos testemunhar os períodos históricos que atravessaram. Sua posição na colina permitia-lhes aproveitar os recursos do rio e do mar, num local defensável, salubre. Estamos perante um perfeito exemplo das construções que os jesuítas ergueram nas primeiras décadas da chegada da ordem ao Brasil, marcando a vontade de se estabelecerem firmemente na nova terra. Efetivamente, preocupado com a rápida degradação das construções jesuítas dos primeiros momentos, que usavam a técnica do pau a pique ou taipa de mão e coberturas de palha, materiais naturais de pouca durabilidade, o padre Manuel da Nóbrega, solicitou autorização à Assistência portuguesa da Companhia de Jesus, em Lisboa, autorização para, no Brasil, não obstante o custo mais elevado, poderem fazer uso de técnicas construtivas para “que fiquem para enquanto o mundo durar (NÓBREGA, 1988, p.137) e das quais este monumento é exemplo.

Os edifícios que formavam a sede da missão, foram espacialmente organizados em quadrado, com um pátio central descoberto e construídos com igreja, torre sineira destacada da casa e as áreas habitáveis uniformemente distribuídas. A igreja de três naves, por sua grande dimensão e características erguida em plena aldeia, um exemplar único no país. Mais importante que a harmonia e tamanho, ela celebra o estado da arte das missões brasileiras da sua época. Para a compreendermos temos de fazer o exercício de nos transportarmos para a segunda metade o século XVI e a sentirmos tal como foi apresentada aos habitantes da aldeia, isto é, como uma barreira física entre o mundo das formas físicas e o mundo do divino. Um local de revelação divina onde Maria, a mãe do Salvador, se apresenta como a mediadora para a entrada no reino do Céu. As diferentes culturas e linguagens presentes na aldeia, apesar da grande distância geográfica, em termos estéticos se integram na primeira geração de igrejas jesuítas portuguesas da transição dos tradicionais modelos com a modernidade. Este exemplar se alinha com a planta da desaparecida igreja que os jesuítas construíram na cidade de Goa. Não obstante sua localização em uma aldeia, a igreja de Nossa Senhora da Assunção de Reritiba, em seu conceito funcional de igreja como espaço de culto, incorpora os ventos da reforma católica que encorajaram o regresso às plantas longitudinais e capela-mor pouco profunda. A separar as três naves uma fila de seis colunas de cada lado da nave central que os indígenas sabiam ser a representação dos doze apóstolos e, simultaneamente, as colunas da igreja física, mas também da Igreja espiritual e que, por sua proximidade com a assembleia, seriam os bons exemplos de vida a serem seguidos. Na fachada principal três janelas com a maior aberta acima da porta, em posição central, e duas menores, abertas ao lado da porta, a simbolizar a Trindade e hierarquicamente dispostas segundo o conceito de diferenciação social da época.

[Fig. 3] Seteira na parede NE da igreja. Função defensiva própria da arquitetura militar.

De feição militar estão visíveis nas paredes laterais as duas seteiras que remetem à sua dupla função de templo e de baluarte defensivo da região a sul da capital [Fig. 3].

No conjunto, suas formas simples e austeras se enquadram numa arquitetura que George Kubler denominou de Plain Style ou Estilo Chão na tradução portuguesa. Eficaz do ponto de vista funcional, define-se pelo despojamento das formas tanto no exterior, como internamente e se ajustava plenamente aos ideais de humildade, beleza e graciosidade, princípios defendidos pela Companhia de Jesus. Ainda se destaca o hibridismo de formas na prevalência da tradição das doze colunas, em estilo toscano ligadas por tramos de arcos de volta perfeita ao gosto renascentista.

A igreja, dedicada a Nossa Senhora da Assunção recebeu, progressivamente, representações a ela alusivas em conjuntos de afrescos e pinturas sobre madeira, construindo um discurso que deu a conhecer aos povos originários da aldeia uma linguagem europeia, própria da arte religiosa que é exemplo da interpretação de um referente sagrado com as rosas. [Fig. 4 e 5] Policromia e formas são aqui elementos do encontro das duas culturas presentes na aldeia, um ponto de conexão do imaginário e das representações indígenas e europeias.

[Fig. 4] Painéis em afresco na capela-mor a reproduzir tapetes azulejares de padrão geométrico florido.
[Fig. 5] Retábulo com pinturas a óleo sobre madeira policromada com motivos florais de simbologia cristã usada em Artes Decorativas.

Após a expulsão da Companhia de Jesus, ordenada pela Lei de 3 de setembro de 1759, no reinado de D. José, todos os bens foram nacionalizados e, tecnicamente a igreja foi reduzida à condição de edifício paroquial, na mesma altura o restante conjunto edificado recebeu novas funções, adaptando-se os cômodos. Assim, surgiram onde antes existiram portaria, quartos, enfermaria, refeitório, oficinas, escola de meninos, e arrecadações, deram lugar aos espaços ocupados pela câmara municipal,
cadeia, quartel e cavalariça, aposento do juiz e sala das sessões, casa paroquial e cemitério no pátio interno dos edifícios. Com efeito, desde 1861, por falta de dinheiro da Câmara para aquisição de um terreno próprio, os sepultamentos passaram a ser feitos no antigo pátio da casa. Esta decisão viria a ser responsável pelo derrube das paredes internas da residência e rebaixadas as paredes das alas residenciais para formação da cerca, com excepção da fachada principal, onde funcionavam as salas ocupadas pela administração municipal e o quarto que fora do padre Anchieta. Em 1928 a Companhia de Jesus retomou a posse de toda a área construída da antiga missão e uma nova campanha de obras teve início até 1940, ano do 4º Centenário da fundação da Companhia de Jesus [1]. Entre 1994 e 1997 uma campanha de investigação e restauro permitiu recuperar a maior parte da feição original da igreja e os levantamentos arqueológicos revelaram em sucessivas camadas de ocupação humana que remonta à cultura sambaquieira, anterior à ocupação pelas etnias tupis. Mais recentemente, de 2019 a 2021 novas intervenções de preservação e restauro foram realizadas trazendo novas linguagens. Na atualidade o visitante encontra o que se considera um compromisso entre um restauro em modelo repristino, isto é, revelando a forma primitiva e um outro que deixa perceber o que durante mais de quatro séculos lhe foi acrescentado.

[Fig. 5] Retábulo com pinturas a óleo sobre madeira policromada.

Para a comunidade anchietense a sua identidade passa por aqui, daí sua conservação ter sido uma constante, não obstante as alterações pelas quais passou. Independente do seu valor cultual a instalação da missão neste local marcou o assentamento de populações de origens distintas nas terras em redor primeiro com a presença jesuítica, depois com a chegada dos imigrantes na segunda metade do século XIX e cem anos depois com a instalação de fábricas que atraem mão de obra de fora.

Referências

Anchieta: a restauração de um santuário. Rio de Janeiro: 6ª Coordenação Regional/IPHAN, 1998.
CUNHA, Maria José dos Santos. “A Companhia de Jesus na colonização do Espírito Santo: missões, fazendas e na vila de Vitória”. Territórios, poderes, identidades. III Congresso Internacional UFES/Université Paris-Est/Universidade do Minho UFES, Vitória, 7 a 10 novembro 2011.


[1] A maioria destas informações sobre o conjunto arquitetônico da missão jesuíta foram por mim recolhidas como parte das investigações históricas durante o período da última intervenção de restauro e constam do relatório final.

______e RIBEIRO, Luiz Cláudio Moisés. “A Devassa contra a Companhia de Jesus e a História regional capixaba: perspectivas historiográficas para o legado jesuítico no Espírito Santo.” In: Devassa da religião da Companhia de Jesus nesta comarca do Espírito Santo. Vitória: EDUFES, 2018.

______e MANSO, Maria de Deus B. “Um levantamento indígena na aldeia de Reritiba”. In: La Compañía de Jesús en las Américas. Presencia en el tiempo. Cristian Troisi Melean; Marcia Amantino. 1ª ed. Buenos Aires, Universidad Nacional de La Plata/Universidade Salgado de Oliveira, 2018.

LEITE, Serafim. Artes e ofícios dos jesuítas no Brasil (1549-1760). Lisboa – Rio de Janeiro: Edições Brotéria e Livros de Portugal. Porto, 1953.

______. Suma Histórica da Companhia de Jesus no Brasil: Assistência de Portugal. 1549-1760. Lisboa: Junta de Investigação do Ultramar, 1965.

LOBO, Rui. A arquitectura das primeiras igrejas jesuítas em Portugal: São Roque de Lisboa e Espírito. Editora USP, 1988.

VIOTTI, Hélio Abranches. Anchieta, o apóstolo do Brasil. 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 1980.

Fonte: MV Circula