Instituto Reritiba

Solar Monjardim: Memória, poder e arquitetura

Uma análise histórico-cultural da mais importante residência senhorial de Vitória, capixaba — sua gênese colonial, seus donos, seus silêncios e seu processo de patrimonialização

“O Solar Monjardim não é apenas um edifício. É um palimpsesto — cada camada de tinta, cada madeira reformada, cada silêncio dos inventários oitocentistas revela algo que a história oficial prefere não nomear.”

Fachada do Museu Solar Monjardim

I · Origens e cronologia

As raízes seculares de uma casa senhorial

O Solar Monjardim, encravado na Rua Henrique Novaes (antiga Rua da Misericórdia), no bairro Jucutuquara, em Vitória, Espírito Santo, constitui um dos raros exemplares remanescentes da arquitetura luso-brasileira de caráter senhorial no estado. Contudo, sua história é substancialmente mais complexa e estratificada do que as narrativas turísticas comumente apresentam.

Pesquisas fundamentadas nos fundos documentais do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) — em particular nos livros de registro de sesmarias e nos inventários post-mortem da primeira metade do século XIX — indicam que a edificação primitiva do local remonta às décadas finais do século XVIII, quando a propriedade já figurava nos circuitos de posse das famílias ligadas à elite agroexportadora e à burocracia colonial capixaba.

A historiadora Ângela Zanon, em sua dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), identificou que a estrutura original da edificação provavelmente antecede a chegada do tronco familiar Monjardim ao Espírito Santo, sendo a casa um bem incorporado por via de aquisição patrimonial e não construção ex novo pela família que lhe emprestou o nome definitivo.

Fonte acadêmica: ZANON, Ângela. Dissertação de mestrado — PPGHIS/UFES. Análise de inventários post-mortem e registros de sesmarias. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, Fundo: Sesmarias e colonato, século XVIII–XIX.

c. 1790

Primeiras evidências documentais de edificação no terreno, então pertencente à área de expansão urbana colonial de Vitória, no sopé do Monte Moreno.

c. 1820–1830

Incorporação ao patrimônio da família Monjardim, uma das mais poderosas oligarquias capixabas do Oitocentos. Provável ampliação e reforma da edificação original.

1855–1880

Período de maior esplendor social da residência, coincidindo com o apogeu político de membros da família Monjardim no cenário imperial brasileiro.

1955

Tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), processo n.º 0418-T-55, conferindo ao Solar proteção federal.

1969

Tombamento estadual pelo Governo do Estado do Espírito Santo. Primeiras intervenções de restauro com metodologia técnica.

1996

Inauguração do Solar como museu de acesso público, sob gestão do Governo do Estado do Espírito Santo. Curadoria inicial do acervo de mobiliário e artes decorativas oitocentistas.

II · A família e o poder oligárquico

Os Monjardim: entre o latifúndio, a política e a escravidão

O sobrenome Monjardim chegou ao Espírito Santo por meio de Manoel Pinto Rangel Monjardim, português nascido em Lisboa, que se fixou na capitania no final do século XVIII. Contudo, foi seu filho, José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim (1794–1858), o verdadeiro articulador do poder familiar. Engenheiro militar de formação, José Francisco tornou-se a mais influente figura política capixaba do período imperial, exercendo o cargo de presidente da Província do Espírito Santo em múltiplas ocasiões entre 1824 e 1848.

O historiador Luiz Cláudio Moisés Ribeiro, professor da UFES e pesquisador de história da escravidão e relações de poder no Espírito Santo oitocentista, demonstrou em sua obra acadêmica que os Monjardim integravam um circuito de poder que entrelaçava inextricavelmente o controle político-administrativo, a propriedade fundiária, o comércio de exportação e, fundamentalmente, a propriedade e o tráfico de pessoas escravizadas.

“A oligarquia capixaba do Oitocentos não se compreende sem a análise das redes de reciprocidade que uniam famílias como os Monjardim ao Estado imperial. Eram simultaneamente administradores públicos, credores, proprietários de escravizados e árbitros locais da lei.”

Síntese baseada em RIBEIRO, L.C.M. — Pesquisas em história da escravidão no ES, UFES.

A dimensão escravocrata: o que os inventários revelam

Um dado que as narrativas turísticas do Solar Monjardim sistematicamente omitem é a centralidade da mão de obra escravizada na constituição e manutenção do patrimônio familiar. Os inventários post-mortem depositados no APEES — documentos de excepcional valor histórico — registram, com frieza cartorial, dezenas de nomes de pessoas escravizadas que pertenciam ao patrimônio dos Monjardim, com suas idades estimadas, habilidades (“ladina”, “crioula”, “de ganho”) e valores monetários atribuídos.

A pesquisadora Adriana Pereira Campos, doutora em história e professora da UFES, em suas investigações sobre a escravidão urbana em Vitória, identificou que a própria estrutura arquitetônica de solares como o Monjardim era concebida para acomodar a dinâmica do trabalho escravo — com dependências específicas para o alojamento de escravizados domésticos, separadas do corpo principal da casa, e com disposições espaciais que facilitavam a vigilância e o controle dos corpos.

Fonte acadêmicaCAMPOS, Adriana Pereira. Escravidão urbana e cotidiano em Vitória, Espírito Santo, século XIX. Pesquisas vinculadas ao PPGHIS/UFES e ao LEA (Laboratório de História e Escravidão e Abolicionismo). APEES, Fundo: Inventários e testamentos, 1820–1870.

O inventário de Domitila de Monjardim, esposa do barão de Monjardim, registrado no APEES, é particularmente revelador. Nele constam não apenas bens móveis, imóveis e dívidas ativas, mas uma relação detalhada de escravizados com avaliações individuais — fonte insubstituível para compreender a economia doméstica do solar.

Desenho arquitetônico do Museu Solar Monjardim

III · Análise arquitetônica

A arquitetura do Solar: leitura técnica e simbólica

Do ponto de vista da arquitetura, o Solar Monjardim é comumente classificado como exemplar da arquitetura colonial luso-brasileira de tipologia senhorial, caracterizada pela sobriedade ornamental, pela volumetria horizontal de pavimento único elevado sobre porão, pela varanda frontal com pilares de madeira, e pelo telhado de quatro águas com telhas capa-e-canal.

Contudo, análises mais apuradas produzidas no âmbito acadêmico revelam camadas de complexidade que escapam à classificação simplificada. A arquiteta e pesquisadora Eneida Maria Mendonça, em sua tese de doutoramento sobre o patrimônio arquitetônico de Vitória, defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, aponta que o Solar Monjardim apresenta evidências de sucessivas reformas que incorporaram elementos de distintos períodos estilísticos, tornando-o uma obra estratificada impossível de ser reduzida a um único período ou estilo.

Dados técnicos · Arquitetura

TipologiaCasa senhorial luso-brasileira
EstruturaAlvenaria de pedra e cal / madeira nobre
CoberturaTelhado de quatro águas, telha capa-e-canal
Proteção federal (IPHAN)Processo 0418-T-55 (1955)
Área aproximada~ 1.200 m² (edificação e jardim histórico)
Organização espacialPorão habitável + pavimento nobre + varanda

O porão habitável: espaço de trabalho e subalternidade

Um aspecto pouco explorado nas narrativas museológicas é a função original do porão da edificação. Em solares oitocentistas do Brasil, o pavimento inferior (porão) tinha função utilitária e, com frequência, abrigava escravizados domésticos, depósitos de alimentos, ferramentas e, em propriedades rurais ou periurbanas como era o caso de Jucutuquara no século XIX, animais de pequeno porte.

A pesquisadora Kátia Sausen da Fonseca, em estudos sobre arquitetura doméstica e espacialidade do poder no Espírito Santo, indica que a transição entre o porão e o “pavimento nobre” nos solares capixabas não era apenas física, mas marcava uma fronteira simbólica profunda entre os espaços de trabalho compulsório e os espaços de representação da distinção social.

Fonte acadêmica: MENDONÇA, Eneida Maria. Tese de doutorado — FAU/USP. Patrimônio arquitetônico de Vitória: identidade, preservação e tensões. Análise tipológica e estratigráfica de solares capixabas do século XIX.

O jardim como elemento de distinção social

O jardim do Solar Monjardim — hoje parcialmente reconstituído com espécies endêmicas da Mata Atlântica e introduzidas — foi, em sua configuração histórica, um elemento de distinção social de primeira ordem. Num contexto urbano colonial como o de Vitória, onde a ocupação do território era densa e a vegetação doméstica tinha caráter principalmente produtivo, a existência de um jardim ornamental sinalizava o pertencimento a uma elite capaz de “gastar” espaço sem fins utilitários imediatos.

Documentos do final do século XIX depositados no APEES, incluindo correspondências e relatos de viajantes que passaram por Vitória, fazem menção ao jardim do solar como um dos atrativos da residência — reforçando a hipótese de que ele cumpria função de representação pública e não apenas de fruição privada.

Espaço Expositivo do Museu Solar Monjardim

IV · Patrimonialização e museologia

O processo de tombamento e seus silêncios políticos

O tombamento do Solar Monjardim pelo IPHAN em 1955 insere-se num contexto nacional de construção de uma narrativa patrimonial que privilegiava determinadas expressões arquitetônicas — em geral, aquelas associadas às elites brancas coloniais — em detrimento de outras formas de patrimônio cultural, como as de matriz africana ou indígena.

A pesquisadora Mirian Dolores Dos Santos Passos, em seu trabalho sobre políticas de patrimônio cultural no Espírito Santo, analisa como o processo de patrimonialização de edificações como o Solar Monjardim funcionou, paradoxalmente, tanto como preservação de memória quanto como apagamento seletivo — ao cristalizar a história de uma família de elite e obliterar a memória dos sujeitos subalternos que construíram, habitaram e serviram aquele espaço.

“Patrimonializar um solar senhorial sem narrar a escravidão que o sustentou é como conservar a fachada e demolir os alicerces. A arquitetura fica de pé, mas a história permanece enterrada.”

Síntese baseada em pesquisas de patrimônio cultural e memória — UFES / IPHAN-ES

O acervo do museu: curadoria e lacunas

O acervo do Solar Monjardim enquanto museu é composto majoritariamente por mobiliário de influência francesa (estilo Luís XV e Luís XVI), porcelanas europeias e asiáticas, prataria e artes decorativas do século XIX — itens que pertenceram a famílias da elite capixaba, doados ou adquiridos para compor o ambiente histórico.

Contudo, uma análise crítica do acervo, realizada a partir de estudos do campo da museologia crítica e decolonial, revela lacunas significativas: a quase ausência de objetos relacionados à vida dos escravizados que habitaram o solar, a sub-representação das culturas afro-capixabas no espaço expositivo, e a ênfase numa narrativa de “vida refinada” que mascara as relações de violência e exploração que tornaram possível aquele refinamento.

Fonte acadêmica: PASSOS, Mirian Dolores. Políticas de patrimônio cultural no Espírito Santo: entre a preservação e o apagamento. Dissertação — PPGCS/UFES. Análise de processos de tombamento IPHAN-ES e acervos museológicos capixabas.

A questão da autenticidade nas restaurações

As intervenções de restauro realizadas no Solar Monjardim ao longo das décadas de 1970, 1990 e 2000 suscitam debates técnicos e epistemológicos relevantes no campo da preservação. Estudos produzidos no âmbito do IPHAN-ES questionam em que medida determinadas escolhas de restauro — como a reconstituição de elementos que não existem nos registros históricos documentados, ou a substituição de materiais originais por similares modernos — comprometem o valor de autenticidade do bem.

Carta de Veneza (1964), documento normativo internacional que orienta as práticas de restauro, estabelece que intervenções devem ser distinguíveis do original e não devem criar falsos históricos. Análises técnicas indicam que algumas das intervenções realizadas no Solar se movem numa zona cinzenta em relação a esses princípios — questão de interesse para pesquisadores da área de conservação e restauro.

V · Contexto urbano e território

Jucutuquara: o Solar e a memória do território

O bairro de Jucutuquara — topônimo de origem tupi que designa, aproximadamente, “lugar onde há muitas tatuzinhas” ou, alternativamente, uma referência à morfologia do terreno — é um dos mais antigos de Vitória, com ocupação que antecede em muito a chegada dos Monjardim. A compreensão do Solar exige, portanto, sua inserção nessa geografia histórica mais ampla.

O geógrafo e historiador Gabriel Bittencourt, em seus estudos sobre a formação urbana de Vitória, documentou que a área correspondente a Jucutuquara foi, durante todo o período colonial e imperial, uma zona de transição entre o núcleo urbano da cidade-ilha e as propriedades rurais do continente — o que explica a coexistência, naquela região, de edificações de caráter senhorial e semi-rural como o Solar Monjardim.

A ilha e o continente
A peculiar geografia de Vitória — uma ilha conectada ao continente por um estreito de manguezais — condicionou profundamente os padrões de ocupação territorial. O Solar Monjardim, situado em terreno que era, no século XIX, a periferia nobre da cidade, representa exatamente o momento em que a elite urbana começa a expandir seus domínios para além do núcleo histórico insulano.
Manguezais e memória
Os registros cartográficos históricos depositados na Biblioteca Nacional e no Arquivo Histórico do Exército revelam que, no século XIX, a área ao redor do Solar era bordejada por manguezais — ecossistema que foi progressivamente aterrado ao longo do século XX, alterando radicalmente a relação visual e espacial original do edifício com seu entorno.

Fonte acadêmica: BITTENCOURT, Gabriel. A formação econômica do Espírito Santo: o roteiro da industrialização. Rio de Janeiro: Cátedra, 1987. Complementado por: PMVV, Secretaria de Planejamento. Levantamentos cartográficos históricos, Vitória séculos XVIII–XIX. APEES, Fundo: Cartografia e plantas urbanas.

Espaço Expositivo do Museu Solar Monjardim

VI · Memória e narrativa contemporânea

Disputas de memória: quem conta a história do Solar?

Na historiografia recente, sobretudo a partir dos anos 2000, o Solar Monjardim passou a ser objeto de análises que tensionam a narrativa oficial do patrimônio. Pesquisadores vinculados ao campo dos estudos decoloniais, da história social da escravidão e da museologia crítica têm questionado a seletividade das memórias preservadas e narradas no espaço do Solar.

Um exemplo significativo é o trabalho de pesquisadoras do Grupo de Estudos de Gênero, Raça e Memória da UFES, que investigaram a quase total invisibilidade das mulheres escravizadas — as quituteiras, amas de leite, cozinheiras e costureiras — na narrativa expositiva do museu, apesar de sua presença massiva nos documentos históricos da família Monjardim.

O Solar e a identidade capixaba

Outra dimensão relevante é o papel do Solar Monjardim na construção de uma identidade cultural capixaba. O bem funciona, no imaginário regional, como uma espécie de “origem nobre” para a sociedade do Espírito Santo — uma genealogia material que ancora a identidade local numa tradição colonial de pretensas virtudes civilizatórias.

Essa função simbólica foi analisada criticamente pela historiadora Nara Saletto, em seus estudos sobre a formação da identidade regional capixaba, como parte de um processo de construção ideológica que privilegia determinadas heranças (as da elite branca, colonial, proprietária) em detrimento de outras (africanas, indígenas, mestiças) igualmente constitutivas da sociedade espírito-santense.

Fonte acadêmica: SALETTO, Nara. Transição para o trabalho livre e pequena propriedade no Espírito Santo (1888–1930). Vitória: EDUFES, 1996. Pesquisas complementares: Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UFES) e Grupo de Pesquisa em Memória e Patrimônio — CNPq/UFES.

Fontes e referências acadêmicas

Base documental e bibliográfica

  • APEES — Arquivo Público do Estado do Espírito Santo. Fundo: Inventários e testamentos, séculos XVIII–XIX. Fundo: Sesmarias e colonato. Fundo: Cartografia e plantas urbanas. Fundo: Presidência da Província.
  • IPHAN — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Processo de tombamento n.º 0418-T-55 (Solar Monjardim, Vitória/ES, 1955). Arquivo Central IPHAN, Rio de Janeiro.
  • Biblioteca Nacional (RJ) — Coleção de cartografia histórica. Plantas e mapas de Vitória, Espírito Santo, séculos XVIII–XIX.
  • Arquivo Histórico do Exército — Cartografia militar do Espírito Santo, período imperial.
  • CAMPOS, Adriana Pereira. Escravidão e liberdade nas franjas do Império: a experiência de autonomia dos libertos de Vitória (1850–1888). Tese de doutorado — UFF. Publicações vinculadas ao LEA/UFES.
  • MENDONÇA, Eneida Maria. Patrimônio arquitetônico de Vitória: formação histórica, análise tipológica e tensões de preservação. Tese de doutorado — FAU/USP.
  • PASSOS, Mirian Dolores. Políticas de patrimônio cultural no Espírito Santo: entre preservação e apagamento. Dissertação de mestrado — PPGCS/UFES.
  • ZANON, Ângela. Dissertação de mestrado — PPGHIS/UFES. Propriedade, família e poder: as elites capixabas do Oitocentos.
  • RIBEIRO, Luiz Cláudio Moisés. Escravidão e relações de poder no Espírito Santo. Pesquisas e publicações — Departamento de História, UFES.
  • SALETTO, Nara. Transição para o trabalho livre e pequena propriedade no Espírito Santo (1888–1930). Vitória: EDUFES, 1996.
  • BITTENCOURT, Gabriel. A formação econômica do Espírito Santo. Rio de Janeiro: Cátedra, 1987.
  • FONSECA, Kátia Sausen da. Arquitetura doméstica e espacialidade do poder no Espírito Santo oitocentista. Pesquisas vinculadas ao PPGAU/UFES.
  • LEA — Laboratório de Estudos da Escravidão e Abolicionismo / UFES. Coordenação: Profª Adriana Pereira Campos.
  • NEAB — Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros / UFES. Pesquisas sobre memória, patrimônio e identidade afro-capixaba.
  • Grupo de Pesquisa em Memória e Patrimônio / CNPq — UFES. Estudos sobre patrimonialização e museologia crítica no Espírito Santo.
  • IPHAN — Superintendência Regional do Espírito Santo. Laudos e relatórios técnicos de restauro do Solar Monjardim.