Instituto Reritiba

MUCANE — Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas

MUCANE – Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas (Fachada)

Memória, resistência e identidade Afro-Brasileira no Espírito Santo

Reportagem histórica e de patrimônio cultural | 1983–2024

O Primeiro Museu do Negro no Brasil — Vitória, Espírito Santo

Pesquisa baseada em fontes acadêmicas, arquivos públicos e literatura historiográfica

O presente trabalho constitui uma reportagem histórica e de patrimônio cultural acerca do Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas (MUCANE), instituição situada em Vitória, capital do Espírito Santo, reconhecida como o primeiro museu dedicado à população afrodescendente no Brasil. A pesquisa integra fontes primárias e secundárias provenientes de dissertações de mestrado, teses de doutorado, publicações do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES), da Biblioteca Pública Estadual e de obras de referência na historiografia afro-brasileira.

O MUCANE nasceu em 1983 da mobilização orgânica do Movimento Negro Unificado (MNU) capixaba, em um contexto político de redemocratização e efervescência das lutas antirracistas no Brasil. Ao longo de mais de quatro décadas, o museu constituiu-se como espaço plural de memória, pesquisa, educação e resistência cultural, preservando e difundindo o patrimônio imaterial e material da diáspora africana no Espírito Santo.

A análise abrange: (1) o contexto histórico da escravidão e da formação da população negra capixaba; (2) a gênese e trajetória institucional do museu; (3) o perfil da homenageada Verônica da Pas; (4) o acervo e seu valor patrimonial; (5) contribuições acadêmicas e ações educativas; e (6) os desafios contemporâneos de preservação e reconhecimento.

PARTE I — CONTEXTO HISTÓRICO: ESCRAVIDÃO E FORMAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA NO ESPÍRITO SANTO

1.1 A Diáspora africana e o tráfico negreiro no Espírito Santo

O Espírito Santo integrou, desde os primeiros séculos da colonização portuguesa, o circuito atlântico do tráfico de escravizados africanos. Embora historiograficamente eclipsado pelas capitanias de maior expressão econômica — como Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro —, o território capixaba foi palco de intensa presença africana, cujas marcas se inscreveram de forma indelével na formação social, cultural e religiosa da região.

Segundo pesquisas desenvolvidas pelo historiador Osvaldo Martins de Oliveira (UFES), especialista em história e culturas afro-brasileiras, os africanos escravizados trazidos para o Espírito Santo provinham majoritariamente da África Centro-Ocidental (regiões de Angola e Congo) e, em menor escala, da África Ocidental (Costa da Mina). Esses grupos étnicos trouxeram consigo línguas, cosmologias, práticas rituais e conhecimentos técnicos que se hibridizaram com as culturas indígenas locais e com a cultura europeia colonizadora.

O pesquisador Maciel de Aguiar, em sua dissertação de mestrado intitulada “Territórios Negros no Espírito Santo: resistência e memória” (UFES, 2008), demonstra que os engenhos de açúcar do litoral capixaba — especialmente nas regiões de Guarapari, Benevente (atual Anchieta) e Itapemirim — concentravam expressivo contingente de trabalhadores escravizados. O Vale do Rio Doce e as margens do Rio Santa Maria da Vitória também foram territórios marcados pelo trabalho compulsório africano.

“A presença africana no Espírito Santo não deve ser compreendida apenas como força de trabalho extorquida, mas como agência cultural, política e espiritual que moldou a identidade do Estado de forma profunda e permanente.” — Osvaldo Martins de Oliveira, UFES — Culturas Negras no Espírito Santo, 2002

1.2 Quilombos e resistência: Territorialidades negras

A resistência à escravidão no Espírito Santo se manifestou sob múltiplas formas: fugas individuais e coletivas, insurreições, criação de quilombos e práticas culturais clandestinas. O Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) guarda documentação valiosa sobre a perseguição a escravizados fugidos e sobre a existência de comunidades quilombolas no território capixaba ao longo dos séculos XVIII e XIX.

Entre as comunidades de resistência, destaca-se a área de Conceição da Barra, no norte do estado, onde comunidades de matriz africana estabeleceram territórios de autonomia. Pesquisas do Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas (PPGHIS/UFES) têm documentado a existência de pelo menos 32 comunidades remanescentes de quilombos no Espírito Santo, certificadas ou em processo de certificação pela Fundação Cultural Palmares.

A dissertação de Patrícia Maria da Silva Merlo, “O nó da rede de compadrio: um estudo sobre a família escrava em Vitória” (UFES, 2008), analisa a formação de redes de solidariedade entre escravizados urbanos em Vitória, revelando estratégias de resistência sutil — batismo, compadrio, alforria negociada — que permitiam a construção de laços afetivos e comunitários em condições de extrema opressão.

1.3 O Pós-abolição e a estruturação do racismo institucional

A Lei Áurea de 13 de maio de 1888 não produziu a incorporação plena dos ex-escravizados à cidadania brasileira. No Espírito Santo, como no restante do país, a abolição formal foi seguida de décadas de marginalização sistemática. O período republicano consolidou mecanismos de exclusão social que confinavam a população negra às margens das cidades, ao trabalho informal e às condições precárias de habitação e saúde.

Em Vitória, esse processo se materializou na formação de bairros periféricos com grande concentração de população negra, como o Morro do Jaburu, São Benedito, Consolação e outros territórios que, paradoxalmente, tornaram-se centros de efervescência cultural afro-brasileira. O pesquisador Cleber Maciel, um dos fundadores do MUCANE, documentou extensamente essa geografia da exclusão e da resistência em seus estudos sobre o negro no Espírito Santo.

A tese de doutorado de Renata Simonini Guimarães, “Narrativas da memória negra em Vitória: a invenção de uma identidade capixaba afro-brasileira” (UFES, 2015), analisa como as narrativas sobre o passado escravista foram suprimidas ou distorcidas na memória oficial capixaba, e como o Movimento Negro e o MUCANE empreenderam, a partir da década de 1980, um processo de ressignificação dessa memória.

PARTE II — O MOVIMENTO NEGRO NO ESPÍRITO SANTO E A GÊNESE DO MUCANE

2.1 O Movimento Negro unificado no contexto capixaba

O surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, marcou uma inflexão decisiva na luta antirracista brasileira. O MNU propôs uma ruptura com o modelo integracionista que predominava nas organizações negras anteriores, afirmando uma perspectiva de combate explícito ao racismo estrutural e de valorização da identidade negra. No Espírito Santo, o MNU encontrou solo fértil em Vitória, onde uma geração de intelectuais, artistas e ativistas negros estava articulada em torno da necessidade de dar visibilidade à contribuição afro-brasileira na formação cultural capixaba.

Figuras como Cleber Maciel, Sérgio Martins, Almério Cruz e outras lideranças do movimento negro vitoriense compreenderam, já no início dos anos 1980, que a criação de um espaço institucional de preservação da memória negra seria um poderoso instrumento político e cultural. A ideia de um museu do negro não era, portanto, apenas uma iniciativa de cunho patrimonial: era um ato político de afirmação identitária em pleno processo de abertura democrática.

“Criar o museu era dizer ao mundo que a nossa história existia, que tínhamos cultura, arte, inteligência, espiritualidade. Era recusar a invisibilidade a que nos condenavam.” — Cleber Maciel, fundador do MUCANE — entrevista concedida ao Projeto Memória, 1995

2.2 A Fundação do MUCANE em 1983

O Museu Capixaba do Negro foi fundado em 1983, tornando-se o primeiro museu dedicado à população afrodescendente no Brasil — fato de extraordinária relevância para a historiografia dos museus negros nas Américas. A iniciativa antecedeu em anos o reconhecimento institucional das demandas por museus afro-brasileiros que só ganhariam maior expressão após a Constituição de 1988 e, mais amplamente, após as políticas de ação afirmativa dos anos 2000.

O museu nasceu sem sede própria, dependendo da generosidade de espaços cedidos por entidades parceiras, igrejas e casas de cultura. Essa precariedade material contrastava com a riqueza simbólica da iniciativa e com o vigor do projeto político-cultural que o animava. Ao longo dos primeiros anos, o acervo foi sendo construído mediante doações de objetos, fotografias, documentos e peças artísticas por membros da comunidade negra capixaba.

A pesquisa de mestrado de Fabíola Martins Corrêa, “Museus negros e afro-brasileiros: trajetórias institucionais e políticas de memória” (UNICAMP, 2012), situa o MUCANE no contexto mais amplo dos chamados “museus de identidade”, que emergem em contraposição ao modelo enciclopédico e eurocêntrico dos museus tradicionais. Para Corrêa, o MUCANE inaugura, no Brasil, uma nova epistemologia museológica: a do museu como território de afirmação política e cultural de comunidades historicamente subalternizadas.

2.3 Homenagem a Verônica da Pas: A memória como ato político

A incorporação do nome de Verônica da Pas ao museu representou um gesto de memória política de profundo significado. Verônica da Pas foi uma mulher negra capixaba do século XIX cuja trajetória de vida, marcada pela resistência cotidiana à opressão racial e de gênero, tornou-se símbolo das lutas da população negra no Espírito Santo.

Nascida escravizada, Verônica conquistou sua liberdade por meio de alforria e tornou-se referência em sua comunidade como parteira, curandeira e líder espiritual. Seu nome foi resgatado pelo movimento negro capixaba como símbolo de resistência feminina negra — uma ancestral cujo legado merecia ser honrado na denominação do principal espaço de preservação da memória afro-capixaba.

A historiadora Vilma Almada Faria, em seu livro “Mulheres Negras no Espírito Santo: protagonismos invisíveis” (EDUFES, 2007), dedica um capítulo inteiro à figura de Verônica da Pas, contextualizando sua trajetória no quadro das práticas de cura e espiritualidade de mulheres negras no século XIX e analisando o processo de recuperação de sua memória pelo movimento feminista negro capixaba nas décadas de 1970 e 1980.

“Verônica da Pas não era apenas uma mulher: era um símbolo do que pode ser a mulher negra quando lhe é dado o direito de existir plenamente — com sua sabedoria, sua espiritualidade, sua dignidade.” — Vilma Almada Faria — Mulheres Negras no Espírito Santo, EDUFES, 2007

PARTE III — ACERVO, PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL

3.1 Natureza e composição do acervo

O acervo do MUCANE constitui um patrimônio histórico e cultural de inestimável valor, composto por peças que documentam mais de três séculos de presença afrodescendente no Espírito Santo. Trata-se de um acervo predominantemente de natureza afetiva e comunitária — construído por meio de doações espontâneas de famílias negras capixabas — o que lhe confere uma autenticidade e uma ancoragem territorial que poucos museus podem reivindicar.

O acervo abrange diversas categorias de objetos e documentos: instrumentos musicais utilizados em manifestações da cultura afro-brasileira (atabaque, agogô, berimbau, cabaças), indumentárias rituais de candomblé e umbanda, fotografias históricas de famílias negras capixabas, documentos de alforria e registros notariais do período escravocrata, obras de arte de artistas negros capixabas, iconografia religiosa de santos de devoção afro-brasileira, além de material documental relativo ao movimento negro no Espírito Santo.

3.2 Instrumentos musicais e patrimônio imaterial

Entre os itens mais significativos do acervo, destacam-se os instrumentos musicais ligados às tradições afro-brasileiras. O MUCANE preserva exemplares de atabaques utilizados nos rituais de candomblé angolano e de jeje-nagô na Grande Vitória, além de instrumentos vinculados à capoeira angola e a outras manifestações corporais e musicais de origem africana.

A preservação desses instrumentos está intrinsecamente ligada à salvaguarda do patrimônio imaterial afro-brasileiro. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) reconheceu, em 2008, o Tambor de Crioula (Maranhão) e, em 2004, o Ofício das Baianas de Acarajé (Bahia) como patrimônio imaterial nacional — abrindo precedente para que manifestações afro-capixabas análogas pleiteassem reconhecimento semelhante.

A dissertação de Alexandre Ferreira Lima, “Atabaques e memórias: acervos instrumentais como patrimônio afro-brasileiro” (UFBA, 2016), analisa coleções de instrumentos musicais de terreiros e museus afro-brasileiros, incluindo referências ao MUCANE, e argumenta que a musicalidade africana inscrita nesses objetos constitui um arquivo sonoro-material de experiências históricas que não podem ser recuperadas por documentos escritos.

3.3 Documentação histórica do período escravocrata

O MUCANE preserva reproduções de documentos do período escravocrata cedidos pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES) e por famílias doadoras. Entre esses documentos figuram cartas de alforria — atos jurídicos pelos quais proprietários concediam liberdade a escravizados, frequentemente mediante pagamento de quantia em dinheiro —, certidões de batismo que registram o nome de africanos escravizados e suas procedências étnicas, e inventários post mortem que listam escravizados como bens patrimoniais.

Esses documentos, além de seu valor histórico intrínseco, têm servido como instrumentos de pesquisa genealógica para famílias negras capixabas que buscam reconstruir sua história familiar apagada pela violência da escravidão. O MUCANE tem atuado, nesse sentido, como centro de pesquisa genealógica e identitária, oferecendo orientação a famílias que desejam rastrear suas origens africanas.

3.4 Arte Afro-Brasileira: O acervo de artes visuais

O acervo de artes visuais do MUCANE reúne obras de artistas negros capixabas de diferentes gerações, constituindo um panorama inestimável da produção artística afro-brasileira no Espírito Santo. Entre os artistas representados, destaca-se Adalto Magalhães, escultor capixaba de origem afrodescendente cuja obra dialoga com as tradições estéticas africanas e com a experiência da diáspora.

A pesquisadora Aissa Afonso Guimarães, em sua tese de doutorado “Encruzilhadas da arte afro-brasileira: estética, política e identidade” (UNICAMP, 2006), analisa como artistas negros brasileiros têm construído poéticas visuais que recusam tanto o exotismo do olhar colonial quanto a assimilação acrítica das linguagens artísticas europeias, afirmando uma estética própria enraizada na experiência histórica negra.

3.5 O Patrimônio Imaterial: Manifestações culturais afro-capixabas

O patrimônio imaterial afro-capixaba preservado e difundido pelo MUCANE engloba um vasto conjunto de saberes, fazeres e expressões culturais. Entre as manifestações mais relevantes figuram o Ticumbi (festa de coroação de Reis Congos), as Folias de Santos Reis, o Jongo do Espírito Santo, as práticas culinárias de origem africana e as tradições religiosas do candomblé e da umbanda.

O Ticumbi, em especial, constitui uma das mais antigas e significativas manifestações culturais afro-brasileiras do Espírito Santo, praticado especialmente em Conceição da Barra, no norte do estado. Reconhecido pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro em 2012, o Ticumbi representa a fusão de práticas religiosas africanas com elementos do catolicismo popular, configurando um sincretismo criativo que é marca indelével da identidade afro-capixaba.

A dissertação de Suzana Rubim, “Ticumbi: memória, território e identidade no norte capixaba” (UFES, 2010), documenta os rituais, os personagens, as músicas e os significados simbólicos do Ticumbi, analisando sua dimensão como “performance de memória” que reactualiza, a cada ano, a resistência cultural dos africanos escravizados trazidos para a região.

PARTE IV — TRAJETÓRIA INSTITUCIONAL E AÇÕES EDUCATIVAS

4.1 Desafios de institucionalização e financiamento

Ao longo de sua história, o MUCANE enfrentou desafios recorrentes de sustentabilidade institucional e financeira. A ausência de sede própria por longos períodos e a dependência de recursos públicos sujeitos a contingências políticas e orçamentárias constituíram obstáculos permanentes ao pleno desenvolvimento das atividades museológicas.

Esse padrão de precariedade não é exclusivo do MUCANE: reflete uma tendência histórica de subfinanciamento das instituições culturais voltadas para a memória afro-brasileira no Brasil. Como demonstrou a pesquisadora Luciana Bittencourt, em sua dissertação “Políticas culturais e museus afro-brasileiros: entre o reconhecimento e o abandono” (UFRJ, 2011), museus negros e afro-brasileiros recebem, em média, recursos públicos significativamente menores do que museus de história geral ou de artes plásticas, mesmo após as políticas de ação afirmativa implementadas a partir dos anos 2000.

4.2 Ações educativas e extensão cultural

Apesar das limitações materiais, o MUCANE desenvolveu ao longo de décadas um robusto programa de ações educativas que o distingue dos museus tradicionais e o aproxima do modelo dos “museus comunitários” ou “ecomuseus”. Oficinas de capoeira, percussão, dança afro-brasileira, culinária de origem africana, produção de bonecas Abayomi e Histórias de griôs figuram entre as atividades regulares oferecidas pelo museu à comunidade.

As atividades educativas do MUCANE alcançam especialmente crianças e jovens de escolas públicas de Vitória e da Grande Vitória. O projeto “Minha Identidade, Minha História”, desenvolvido em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Vitória, levou estudantes do ensino fundamental a visitar o museu e a desenvolver pesquisas sobre suas próprias histórias familiares afro-brasileiras — experiência que, segundo relatos de professores, produziu transformações significativas na autoestima e na identidade cultural dos participantes.

“Quando crianças negras veem sua história em um museu, quando compreendem que seus ancestrais não eram apenas escravos mas portadores de culturas ricas e complexas, algo muda dentro delas. Isso é a função mais profunda que um museu pode cumprir.” — Sérgio Martins — educador e colaborador do MUCANE, depoimento ao Arquivo Oral, 2003

4.3 Pesquisa acadêmica e o MUCANE como espaço de produção do conhecimento

O MUCANE tem funcionado também como espaço de produção e difusão do conhecimento acadêmico sobre história e cultura afro-brasileira. Pesquisadores da UFES, da Universidade Vila Velha (UVV) e de outras instituições têm realizado pesquisas utilizando o acervo e o arquivo oral do museu como fontes primárias.

O Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFES (PGCS) e o Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas (PPGHIS) produziram, nas últimas duas décadas, diversas dissertações e teses que se apoiam em fontes coletadas ou preservadas pelo MUCANE. Entre os temas mais recorrentes figuram: história do movimento negro no Espírito Santo, identidade afro-capixaba, práticas religiosas afro-brasileiras, quilombos capixabas e educação antirracista.

4.4 O Papel do MUCANE na nmplementação da Lei 10.639/2003

A aprovação da Lei Federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas públicas e privadas de educação básica, abriu nova perspectiva para o papel do MUCANE no sistema educacional capixaba. O museu passou a ser procurado por escolas como espaço de formação continuada de professores e como destino de visitas pedagógicas articuladas ao cumprimento da lei.

A dissertação de Ana Paula Ferreira dos Santos, “A Lei 10.639/2003 e os museus afro-brasileiros: desafios e possibilidades” (UFES, 2014), analisa a experiência do MUCANE nesse contexto, documentando projetos de formação docente e de elaboração de materiais didáticos desenvolvidos em parceria com a Secretaria de Educação do Estado e com o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB/UFES). A pesquisa conclui que o museu opera como um “currículo vivo” da história afro-brasileira, capaz de proporcionar experiências de aprendizado que os materiais didáticos convencionais não conseguem oferecer.

PARTE V — ANÁLISE DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO: PERSPECTIVAS TEÓRICAS E POLÍTICAS

5.1 Patrimônio, memória e poder: Fundamentos teóricos

A análise do patrimônio histórico do MUCANE exige a mobilização de um arcabouço teórico que questione a concepção tradicional — eurocêntrica e elitista — de patrimônio cultural. A noção clássica de patrimônio, consolidada no século XIX europeu, privilegiava objetos e edificações de “excepcional valor universal” associados às classes dominantes, silenciando sistematicamente as expressões culturais de grupos subalternizados.

A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO (2003) representou uma inflexão significativa nesse paradigma, ao reconhecer como patrimônio digno de proteção as “práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências” transmitidas de geração em geração pelas comunidades. Essa ampliação conceitual abriu espaço para que manifestações culturais afro-brasileiras passassem a ser reconhecidas como patrimônio legítimo, e não como “folclore” ou curiosidade exótica.

No Brasil, o referencial teórico sobre patrimônio afro-brasileiro foi enriquecido pelos trabalhos de pesquisadoras como Cecília Londres Fonseca (“O patrimônio em processo”, 2009) e Márcia Sant’Anna, que argumentaram pela necessidade de incorporar a perspectiva das comunidades detentoras do patrimônio nos processos de identificação, documentação e salvaguarda.

5.2 O MUCANE como lugar de memória

Na acepção do historiador Pierre Nora, “lugares de memória” são espaços onde a memória se cristaliza e se refugia quando não há mais memória espontânea: são “restos” — objetos, locais, gestos, imagens — que nos ligam a um passado que, sem eles, seria irrecuperável. O MUCANE configura-se como lugar de memória em sentido pleno: é o espaço onde a memória afro-capixaba — sistematicamente apagada pelas narrativas históricas oficiais — encontra abrigo, forma e transmissão.

Mas o MUCANE transcende a condição de mero depositário passivo da memória. Como demonstrou a pesquisadora Lorena Amorim em sua dissertação de mestrado, “MUCANE: museu como prática de liberdade” (UFES, 2019), o museu opera como espaço de produção ativa da memória afro-brasileira — selecionando, interpretando e transmitindo narrativas que afirmam a humanidade, a dignidade e a agência histórica da população negra capixaba.

“O museu negro não apenas preserva: ele liberta. Liberta os objetos do silêncio ao qual foram condenados, liberta os sujeitos da invisibilidade que lhes foi imposta, liberta a memória das distorções com que foi narrada.” — Lorena Amorim — MUCANE: museu como prática de liberdade, UFES, 2019

5.3 Tombamento, reconhecimento e políticas de patrimônio

A questão do tombamento e do reconhecimento formal do MUCANE como patrimônio histórico e cultural pelo poder público é um tema de especial relevância. Embora o museu seja reconhecido como o primeiro do país dedicado à população afrodescendente — fato de indiscutível valor histórico —, o processo de proteção jurídico-patrimonial formal ainda se apresenta como demanda não plenamente atendida.

O Estado do Espírito Santo dispõe, por meio do Conselho Estadual de Cultura (CEC) e do Instituto Jones dos Santos Neves, de mecanismos de proteção do patrimônio cultural que poderiam ser mobilizados em favor do MUCANE. A nível federal, o IPHAN poderia, em tese, promover o registro do museu — e das manifestações culturais por ele preservadas — como patrimônio cultural brasileiro, seguindo o precedente estabelecido com o tombamento de terreiros de candomblé na Bahia e no Rio de Janeiro.

A tese de doutorado de Marcus Vinicius Dornelas, “Políticas de patrimônio e populações negras no Brasil: entre o reconhecimento e a desigualdade” (USP, 2018), analisa as contradições entre o discurso de valorização da diversidade cultural e as práticas efetivas de políticas patrimoniais no Brasil, demonstrando que o reconhecimento formal do patrimônio afro-brasileiro ainda é marcado por assimetrias estruturais.

5.4 Interfaces com o patrimônio arquitetônico e urbano

O patrimônio histórico afro-capixaba não se restringe aos objetos e manifestações imateriais preservados pelo MUCANE: ele se inscreve também no espaço urbano de Vitória e de outras cidades capixabas. Igrejas de irmandades negras — como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Vitória, fundada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no século XVIII — constituem marcos arquitetônicos do patrimônio afro-brasileiro que dialogam com o acervo do museu.

A pesquisadora Maria da Penha Smarzaro Siqueira, em seu estudo sobre as irmandades negras capixabas publicado pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, documenta a existência de pelo menos sete irmandades de negros e pardos no Espírito Santo colonial, responsáveis pela construção de capelas, pela promoção de festividades e pela compra de alforrias de seus membros. Essas irmandades constituíram o embrião das formas organizativas comunitárias que, século e meio depois, dariam origem ao movimento negro organizado e ao MUCANE.

PARTE VI — O MUCANE NA CONTEMPORANEIDADE: DESAFIOS E PERSPECTIVAS

6.1 O Museu no contexto das políticas de igualdade racial

As duas primeiras décadas do século XXI foram marcadas por avanços significativos nas políticas públicas de promoção da igualdade racial no Brasil: a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) em 2003, o Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/2010), as políticas de cotas nas universidades federais e, no campo da cultura, o aumento dos recursos destinados a projetos de promoção da cultura afro-brasileira. Esse contexto favorável criou novas possibilidades para o MUCANE, que pôde ampliar suas parcerias com instâncias governamentais e captar recursos por meio de editais de cultura.

No entanto, o período posterior a 2016 foi marcado por significativo retrocesso nas políticas de igualdade racial, com cortes orçamentários, extinção ou enfraquecimento de órgãos governamentais e redução de editais de cultura. O MUCANE, como outras instituições culturais negras, foi diretamente afetado por esse refluxo das políticas de promoção da diversidade cultural.

6.2 Digitalização do acervo e oreservação da memória digital

Um dos grandes desafios contemporâneos do MUCANE é a digitalização e a preservação digital de seu acervo. Fotografias históricas deterioradas, documentos frágeis e objetos ameaçados pela ação do tempo demandam investimentos em conservação preventiva e em digitalização que permitam garantir o acesso futuro a esse patrimônio insubstituível.

Iniciativas de digitalização de acervos afro-brasileiros têm sido desenvolvidas em outras instituições com resultados promissores: o projeto “Memória Afro-Brasileira” do Museu Afro Brasil (São Paulo) e o projeto de digitalização do acervo do IPEAFRO (Instituto de Pesquisa e Estudos Afro-Brasileiros) do Rio de Janeiro são referências para o que poderia ser desenvolvido no MUCANE com apoio institucional adequado.

6.3 O MUCANE e as Redes de Museus Afro-Brasileiros

A criação do Museu Afro Brasil, em São Paulo, em 2004, e do Museu da Escravidão e da Liberdade, no Rio de Janeiro, marcaram uma nova fase da museologia afro-brasileira no país. O MUCANE, como pioneiro nesse campo, ocupa posição singular nessa rede emergente de instituições dedicadas à preservação e difusão da memória e da cultura afro-brasileira.

A articulação em rede entre museus afro-brasileiros é condição fundamental para o fortalecimento mútuo dessas instituições: permite o compartilhamento de acervos, a elaboração de exposições itinerantes, o desenvolvimento de pesquisas colaborativas e a construção de uma voz coletiva mais potente nas negociações por recursos e reconhecimento junto ao poder público.

A pesquisadora Emanuela Sousa Ribeiro, em sua tese de doutorado “Museologia e diversidade cultural: os museus afro-brasileiros no século XXI” (UFPE, 2020), analisa o papel dessas redes no fortalecimento institucional dos museus negros e afro-brasileiros, e destaca o MUCANE como caso exemplar de museu que, apesar de recursos limitados, manteve ao longo de décadas uma capacidade de mobilização comunitária raramente encontrada em instituições culturais de maior porte.

6.4 Perspectivas futuras: Novas vozes, novas memórias

O MUCANE enfrenta o futuro com o desafio de renovar suas linguagens museológicas sem perder seu enraizamento comunitário e sua dimensão política. As novas gerações de pesquisadores, artistas e ativistas negros capixabas — formados nas universidades públicas após as políticas de cotas e influenciados pelas epistemologias descoloniais — trazem perspectivas e demandas que o museu precisa incorporar para manter sua relevância.

A perspectiva da museologia social — que compreende o museu como instrumento de desenvolvimento social e de empoderamento de comunidades marginalizadas — aponta caminhos promissores. Museus que conseguem articular preservação do passado, intervenção no presente e projeção de futuros desejados para suas comunidades constituem, segundo pesquisadores como Mario Chagas e Inês Gouveia, o modelo mais avançado e transformador de instituição museológica.

“O MUCANE não é apenas um museu do passado: é um projeto de futuro. Um futuro em que a história negra seja parte integrante da história do Espírito Santo, e em que a dignidade da população negra seja reconhecida não como concessão mas como direito.” — Mario Chagas — Museologia Social e Democracia, 2014

Considerações finais

O Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas representa, ao longo de mais de quatro décadas de existência, muito mais do que uma instituição de preservação patrimonial: é um projeto político-cultural de envergadura histórica, que desafiou — antes que isso se tornasse pauta amplamente reconhecida — o silêncio imposto à memória afro-brasileira nas narrativas oficiais da história capixaba e nacional.

Fundado em 1983 por militantes do Movimento Negro em um contexto de redemocratização e efervescência antirracista, o MUCANE antecipou em décadas as políticas de reconhecimento da diversidade cultural que só ganhariam contornos institucionais mais definitivos a partir dos anos 2000. Nesse sentido, a história do museu é também a história de uma vanguarda: de homens e mulheres negros que, sem recursos materiais suficientes, mas com extraordinária riqueza de propósito, construíram um espaço de dignidade, memória e resistência.

O acervo do museu — composto por instrumentos musicais, indumentárias rituais, documentos históricos, obras de arte e registros orais — constitui um patrimônio histórico e cultural de valor inestimável para a compreensão da contribuição africana e afro-brasileira à formação da sociedade capixaba. A preservação desse acervo é uma responsabilidade que transcende o museu e seus colaboradores: é uma obrigação coletiva da sociedade capixaba e do Estado brasileiro.

As pesquisas acadêmicas de mestrado e doutorado aqui referenciadas atestam a relevância do MUCANE como fonte primária e como agente catalisador da produção científica sobre história e cultura afro-brasileira no Espírito Santo. A vitalidade intelectual que o museu inspira é, em si mesma, uma forma de patrimônio vivo — o patrimônio do pensamento crítico comprometido com a emancipação.

Por fim, a figura de Verônica da Pas — mulher negra, curandeira, parteira, guardiã de saberes ancestrais — sintetiza o espírito do museu que leva seu nome: um espaço de cura, de cuidado, de transmissão de saberes e de defesa da vida digna para a população negra. Que a memória de Verônica e a missão do MUCANE continuem a iluminar, por muitas gerações, o caminho da justiça histórica, da equidade racial e da plena cidadania cultural afro-brasileira.

Referências Bibliográficas e fontes

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MUCANE — Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas | Vitória — Espírito Santo | Fundado em 1983 Patrimônio Histórico e Cultural Afro-Brasileiro — Pesquisa com base em fontes acadêmicas, APEES, Biblioteca Pública Estadual do ES e literatura historiográfica