
Ao sairmos do carro, junto à estação de Matilde, no final de uma primavera que já anunciava o rigor do verão, fomos imediatamente envoltos pela atmosfera densa e bucólica de Alfredo Chaves (ES). Sob o sol intenso da manhã, deparamo-nos com o calor úmido que exalava da terra e da exuberante Mata Atlântica, revigoradas pela chuva intensa dos dias anteriores. Em meio à sinfonia estridente das cigarras e ao cenário vitoriano da estação ferroviária — um verdadeiro transplante cultural britânico em plena montanha capixaba —, ergue-se o edifício de tijolos aparentes, testemunha silenciosa de quando aquele local era o coração pulsante da economia cafeeira do sul capixaba, artéria aorta por onde escoava o “ouro verde” para o mundo.
Ao pisarmos na plataforma, em um exercício de arqueologia sensorial, não ouvíamos apenas o silêncio do presente; um eco distante do apito agudo e inconfundível da locomotiva a vapor rompia o ar rarefeito das montanhas, anunciando a chegada impetuosa do progresso técnico. O som metálico do chiar das rodas de ferro sobre os carris ecoava pelo vale, um concerto industrial acompanhado pela densa fumaça negra expelida pela chaminé da caldeira, que tingia o ar límpido da serra com o cheiro de carvão queimado e aventura. Na plataforma, o burburinho intenso dos passageiros em trânsito, entre o lamento das despedidas e a euforia dos reencontros, misturava-se ao aroma inebriante do café recém-colhido. Saca após saca, o “ouro verde” era estivado nos vagões de carga, iniciando uma longa jornada geoeconômica em direção ao porto do Rio de Janeiro e, de lá, para o mundo.


A bordo, a viagem transfigurava-se em uma vivência sensorial intensa e multifacetada. Dentro das carruagens, entre o burburinho dos viajantes — que dividiam conversas sobre negócios cafeeiros, notícias da capital e relatos de histórias familiares —, a viagem prosseguia em seu trajeto serpenteante por entre as montanhas, contrastando com o cochilo de outros passageiros que, exaustos, dormitavam ao ritmo compassado dos dormentes e do sacolejar dos vagões. A fuligem, inevitável subproduto da tração a vapor, depositava-se como um manto negro sobre roupas e rostos, tornando-se uma marca indelével e compartilhada da aventura ferroviária. O ápice da jornada ocorria logo após a partida de Matilde, no sentido de Cachoeiro: a excitação e o leve temor dos passageiros durante a travessia na escuridão absoluta do túnel, um marco técnico que rompia a rocha e simbolizava a audaciosa dominação humana sobre o relevo acidentado.
O influxo econômico trazido pela ferrovia foi profundo, agindo como catalisador na estruturação de núcleos urbanos e conferindo valor à produção agrícola da região perante o vasto circuito comercial global. Contudo, reduzir a Estação de Matilde à sua função utilitária histórica seria um empobrecimento de sua essência. Hoje, transfigurada pelo tempo de sua prolongada inatividade, ela ergue-se como um componente indissociável do patrimônio cultural e paisagístico do Espírito Santo, testemunha imponente de uma simbiose entre o labor humano e a exuberância da natureza.


O Instituto Reritiba de Desenvolvimento Social, Cultural e Ambiental compreende que a preservação deste sítio histórico é fundamental para a salvaguarda da memória coletiva e para o fomento de um desenvolvimento turístico sustentável. A revitalização de Matilde propicia a conexão entre a história econômica e a valorização do ambiente natural, garantindo que o legado ferroviário continue a gerar valor social e cultural para as futuras gerações.


Por: Maria José dos Santos Cunha Fotos: Dhyovaine Nascimento Costa


