Estudo inédito coordenado pelo antropólogo Márcio de Paula Filgueiras revela que a distância emocional é o maior inimigo da conservação em Guarapari. A chave para o futuro está em transformar o “olhar de longe” em vivência prática.
O que define se um ecossistema será protegido ou degradado? Para a equipe de pesquisadores do projeto Vozes dos Manguezais, a resposta não está apenas nos índices biológicos, mas no coração e na memória da população. O antropólogo Márcio de Paula Filgueiras, responsável pelos estudos de percepção sociocultural, apresentou recentemente os resultados preliminares de um levantamento que busca entender como o morador de Guarapari enxerga o “berçário da vida marinha”.
Trabalhando ao lado de Marcella Tavares e Clayton de Almeida, Márcio conduziu um “evento-teste” estratégico. Através de questionários aplicados a estudantes do IFES Guarapari e seus familiares, a equipe conseguiu mapear um grupo heterogêneo: pessoas de diferentes idades, formações acadêmicas e tempos de moradia na cidade.

O Raio-X da relação: Entre a observação e a vivência
Os dados apresentados por Márcio (conforme o gráfico de “A relação com os MANGUEZAIS”) revelam um cenário de dualidade. Embora o manguezal esteja fisicamente presente na cidade, a conexão real ainda é tímida:
- O distanciamento silencioso: A maior fatia dos entrevistados (36,8%) afirmou que “sempre observei, mas nunca tive contato direto”. Somado aos 26,3% que declararam que “geralmente não observo o mangue”, temos uma maioria que vê o ecossistema como um cenário estático, e não como um espaço de interação.
- O vínculo de memória: Outros 26,3% indicaram que o mangue já esteve presente em suas vidas algumas vezes, enquanto fatias menores guardam o mangue como parte da infância ou como local de frequência regular para pesca e lazer.
Para o antropólogo, esses números traduzem o maior desafio atual: “O principal ponto negativo é o distanciamento. O mangue, de maneira geral, é um lugar que as pessoas passam, veem de longe, mas não têm uma relação direta. E temos percebido que essa vivência é fundamental para a preservação”, explica Márcio.
Afeto: O elemento químico da conservação
A tese defendida por Figueira é de que o conhecimento técnico, por si só, não garante a proteção. É preciso o vínculo emocional. “Já começamos a visualizar, de maneira preliminar, que a relação de vivência e o vínculo emocional e afetivo com o mangue é um elemento fundamental para sua preservação”, afirma.
Quando o cidadão deixa de ver o mangue apenas como “lama e cheiro forte” e passa a entendê-lo como parte de sua identidade ou história familiar, a vigilância contra crimes ambientais e o apoio à restauração tornam-se orgânicos.
O papel das instituições: Incluir para proteger
O estudo também trouxe um dado otimista sobre a presença do Estado e de organizações ambientais. Márcio destaca que, em locais onde já existe um desenvolvimento institucional — como as Reservas de Desenvolvimento Sustentável (RDS) —, o reconhecimento e a valorização do mangue são significativamente maiores.
“Isso mostra que o caminho é identificar unidades de conservação que sejam apropriadas para o local”, pontua o antropólogo. Ele ressalta, contudo, que a criação dessas áreas não deve significar a expulsão do ser humano, mas sim sua integração. “O objetivo é não excluir as comunidades, mas envolvê-las de maneira efetiva e prática com o mangue.”
Ciência e comunidade lado a lado
O levantamento sociocultural é uma das pernas que sustentam o avanço da restauração dos manguezais em Guarapari. Ao entender o que o povo pensa, o projeto Vozes dos Manguezais consegue desenhar estratégias de educação ambiental que falem diretamente ao coração da comunidade.
Como resume Márcio Figueira, preservar o mangue é, antes de tudo, aproximar as pessoas da lama que sustenta a vida.
Para saber mais sobre as ações de restauração e os estudos científicos em Guarapari, acompanhe a categoria especial no site: https://reritiba.com/vozesdosmanguezais


