A jornada de um estudante da Guiné-Bissau no Espírito Santo revela como a prática acadêmica rompe barreiras geográficas e transforma o “olhar de longe” em compromisso com a preservação.

A preservação ambiental é uma linguagem universal, mas, para muitos, ela só se torna real através do contato direto. No projeto Vozes dos Manguezais, em Guarapari, um relato de intercâmbio acadêmico emocionou pesquisadores e voluntários ao demonstrar como o conhecimento técnico atravessa oceanos para ressignificar paisagens familiares.
Vindo da Guiné-Bissau, na África Ocidental, para estudar no Brasil, o estudante Paulino Luis Botan, atualmente no 2º semestre de Engenharia de Pesca no IFES – Campus Piúma, trouxe consigo uma vivência comum a muitos: a de ver o manguezal apenas como um cenário distante. Mesmo vindo de um país rico nesse ecossistema, o contato físico e a compreensão científica só aconteceram em solo capixaba.
A ciência que rompe o distanciamento
O intercâmbio proporcionou a Paulino o que ele chama de “experiência de toque”. Pela primeira vez, o estudante manuseou propágulos — as estruturas de dispersão fundamentais para a regeneração das florestas de mangue.
“No meu país tem manguezais, mas eu nunca tinha tocado. Era algo distante, eu via como algo simples. A minha experiência está sendo muito boa porque agora estou entendendo a importância desses propágulos, que fazem parte do manguezal e que eu nunca tinha sabido”, relatou o estudante.
Para ele, essa descoberta prática é a chave para mudar a mentalidade de outras pessoas que, como ele no passado, desconhecem a complexidade desse ambiente. O objetivo agora é levar esse aprendizado adiante, funcionando como uma ponte entre o conhecimento acadêmico e a percepção popular.
Ampliando fronteiras da engenharia de pesca
A trajetória do estudante no Brasil começou em Brasília, com o curso técnico em Aquicultura, passou pela Paraíba e culminou no Espírito Santo. Durante esse percurso, o intercâmbio cultural também serviu para desmistificar preconceitos sobre sua área de atuação.
Paulino recorda que muitos questionavam se sua formação seria voltada apenas para a pesca artesanal em seu país de origem. No entanto, a vivência prática no projeto Vozes dos Manguezais mostrou que a profissão é estratégica para a vida humana. “Muitos achavam que a Engenharia de Pesca tratava apenas de peixes, mas aqui percebi que é uma área muito ampla. O manguezar é fundamental para a vida”, afirma.
O valor do conhecimento compartilhado
O caso de Paulino ilustra um dos pilares do projeto: a capacidade de transformar estudantes em multiplicadores. Ao entender a função vital do manguezal como berçário e proteção costeira, o intercâmbio deixa de ser apenas uma experiência acadêmica individual e passa a ser uma ferramenta de transformação socioambiental global.
Ao unir a ciência produzida no Espírito Santo com a história de vida de um estudante africano, o projeto reafirma que a preservação dos manguezais não é uma pauta local, mas um compromisso que une continentes e gerações.


